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Correspondência e cartas

Ainda que a efervescência da troca em tempo real me deixe animada, o que tem aquecido o coração é a possibilidade da troca sem pressa, o passo lento, a desaceleração.

Eu já namorei por cartas.

Meu primeiro namorado morava a quase 400km de distância. A família dele era vizinha do meu avô, lá na casa onde a gente passava as férias na infância. Os tempos eram outros, ligação DDD era cara, telefone individual era raro e a internet ainda não tinha se popularizado. A gente se correspondia por cartas, se encontrava nos feriados prolongados em que minha mãe se animasse a ir pra cidade dele.

Quem é das cartas sabe o prazer da chegada do envelope. O concreto da leitura, a caligrafia do interlocutor, o cuidado na escrita do que só vai ser lido muito depois. Sabe também a dor da espera, a trabalheira do envio, a expectativa da devolutiva sobre o que se escreveu.

Essa semana eu me peguei pensando sobre cartas. Sobre correspondências escritas. Sobre jeitos de conversar. Assim como as conversas presenciais, as mensagens diretas e aplicativos de trocas de mensagens facilitam a comunicação, seja de forma síncrona ou assíncrona, deixando o registro dos turnos de fala. E aqui foi que a lembrança das cartas me pegou.

Quando escrevo uma carta, um email, um texto no blog, tenho tempo pra organizar as ideias, posso encadear pensamentos, posso ligar assuntos numa narrativa mais ou menos linear. A quantidade de assuntos antes de efetivamente enviar as informações é mais controlada. A interação com o outro, por sua vez, permite que ele enriqueça com sua contribuição, seus exemplos, suas reações. Às vezes isso desvia a rota, já que conversa é brinquedo de dois ou mais. Acontece de você ter planejado falar sobre algo, e não encontrar o momento certo de introduzir o tópico, porque agora a conversa já ficou sobre outra coisa.

Trocar mensagens com gente de mente acelerada que nem eu parece até maratona. Você quer falar sobre o que a pessoa disse, fazer uma piadoca que cabe no assunto e quer também falar do pensamento que aquilo que foi dito desencadeou. E a outra pessoa está fazendo o mesmo, e interagindo com a sua piada, e daqui a pouco a conversa fica sobre seis temas ao mesmo tempo. É ótimo, mas não é a mesma coisa.

Por outro lado, quando alguém me lê até o fim antes de escrever ponderações, é possível que voltem a acontecer as mesmas seis conversas ao mesmo tempo. A diferença dos textos longos é que os turnos não restringem os tópicos. E assim fica mais fácil desenvolver com cuidado o que se acredita ter entendido, a contribuição sobre o assunto, a reação que causou… E repetir pra cada tópico do texto mais recente, ora de um, ora de outro. Às vezes eu acabo percebendo que o que disse com a intenção de declarar A provoca uma interpretação B, que é muito mais profunda e interessante do que a minha primeira escrita. Para seguir nessa interpretação eu não preciso parar de discutir os demais assuntos, eu só vou acabar escrevendo respostas cada vez mais longas…

Essa é a ligação com a minha realidade. Ainda que a efervescência da troca em tempo real me deixe animada, o que tem aquecido o coração é a possibilidade da troca sem pressa, o passo lento, a desaceleração. Se não foi hoje, vai ser amanhã, ou num dia mais pra frente. O silêncio pode ser resposta mas também pode ser decantação, apuro, oxigenação. O mundo não vai acabar amanhã, a maior parte das coisas não tem prazo definido e nada é tão definitivo assim. Respirar. Escrever. Elaborar. Dividir. Ler. E celebrar quando as palavras me encontram.

Bônus: cartas, emails e demais textos longos são excelentes para releitura. Me lembra um poeminha escrito na agenda da eu-adolescente de 14 anos:
“cada palavra relida
da carta que alguém nos fez
é um tantinho de vida
que a gente vive outra vez”.

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