Eu sou do tempo em que os catálogos telefônicos chegavam às nossas casas. Além da muito útil lista de estabelecimentos comerciais, com suas especialidades, endereços e telefones, esses enormes amontoados de papel traziam, pelo menos em BH, um belíssimo mapa detalhado das ruas da cidade. Se eu precisava chegar a um determinado endereço, podia confiar no mapa do catálogo para desenhar um caminho.
Acelera duas décadas e cá estamos, com aplicativos em nossos smartphones que oferecem os mesmos mapas, mas agora com programação que pode traçar os melhores e mais rápidos trajetos pelas vias registradas. Com isso, nos acostumamos a delegar a um cérebro eletrônico o trabalho de decidir nossas rotas, de forma simples, conveniente e rápida.
De forma similar, as trilhas foras da estrada também foram sendo beneficiadas por outros aplicativos, e ainda pela crescente disponibilidade de aparelhos com sistemas de GPS, o que favorece gravar e pesquisar caminhos previamente trilhados. Com a tecnologia adequada, eu posso seguir uma trilha e chegar a um ponto de interesse, confiando nas instruções de rota descritas pelo meu celular.
Os parágrafos seguintes podem fazer parecer que eu sou contra essas maravilhas tecnológicas, então preciso avisar desde já que uso, usei e usarei aplicativos de rotas em vias urbanas e fora da estrada, inclusive em outros estados e países para os quais os mapas em papel não estariam tão facilmente ao meu alcance.
Pois então… Se você tem o hábito de usar os aplicativos de vias urbanas, tenho certeza que, assim como eu, já passou por locais pelos quais nunca escolheria passar, mas confiou no aplicativo e ele tirou você de lá. Não dá para negar o aumento da tensão no processo, certo? Como a maioria das outras situações, transpor essas mesmas experiências para fora da estrada (e mais perto da natureza) sempre complica as coisas. Rios intermitentes que, bem na sua vez de passar, estão cheios demais; pontes que estavam lá antes mas agora já não existem; vegetação que cobre o que antes era uma trilha… A lista das coisas que podem acontecer de modo diferente do previsto é grande! E nem sempre a tecnologia está preparada para recalcular a rota no meio do caminho.
Bem, e o que tudo isso tem a ver com o comboio numa trilha? Mil coisas. Vamos ao início.
Quando a gente pede orientações para alguém, com o intuito de chegar a algum lugar, especialmente uma região que não conhece, precisa seguir todas as instruções e prestar atenção aos pontos de referência. E, na trilha, os tais pontos de referência são as coisas mais esquisitas, né? Uma pedra de determinado formato, uma árvore de determinada espécie…
Andar em grupo, em comboio, seja no offroad de veículos 4×4 ou nas pernadas dos grupos de trilha e trekking, significa confiar numa hierarquia que está representada pelo guia. É acreditar na experiência de alguém que conhece a área e que possivelmente vai fazer as melhores escolhas de rota para aquele coletivo. Os melhores guias vão saber contornar os desafios da melhor maneira para aquele grupo, talvez até por um caminho que não é o que ele pessoalmente gostaria de fazer.
No fundo, quando o grupo escolhe seguir um guia, é mais ou menos o mesmo de confiar a decisão da trilha a um aplicativo: você decide e obedece. Ao invés de um cérebro eletrônico, uma cabeça pensante. De brinde, ganha a satisfação de ter essa confiança compartilhada com o grupo e também a certeza de que, em caso de desvio de rota, estarão todos juntos para enfrentar o que vier pela frente, no melhor espírito de aventura.