original em inglês: https://www.meditationsinanemergency.com/the-she-made-him-do-it-theory-of-everything-2/
The She Made Him Do It Theory of Everything
Rebecca Solnit
26 de fevereiro de 2025
tradução Adriana Coelho
A retórica e a lógica de abuso de poder operam de maneira similar em todas as escalas, motivo pelo qual eu encontrei no feminismo um equipamento tão útil para entender os autoritários na vida pública e na política. Porque, não importa o que os abusadores tirem de suas vítimas, eles não querem tirar delas a culpa. E uma das prerrogativas de poder é estar encarregados de culpar, e os abusadores exercem esse poder de forma cotidiana para fazer de seus atos culpa de outra pessoa.
Deixe-me começar com onde o tempo todo costumávamos ouvir o “ela o obrigou” – em violência sexual e de gênero. A lógica era que, de alguma forma, as mulheres eram muito poderosas, o que faziam com que elas fossem estupradas e espancadas – o poder delas consistia em obrigar os homens a fazer coisas, que os homens tinha poder suficiente, na forma de força bruta, pra fazer, mas eram incapazes, no senso de arbítrio moral ou autocontrole, de resistir a fazer. A ideia de que tudo isso era resultado dos homens perdendo o controle sempre foi minada pelo fato de que uma pessoa que realmente não tem qualquer autocontrole vai agir de forma imprudente, inconsequente, e esses atos eram normalmente realizados de maneira secreta, em um esforço para escapar das consequências e de testemunhas hostis.
Existe um termo, controle coercivo, que descreve tais violências e estupros como parte de uma campanha maior de dominação, motivo pelo qual sempre foi sobre controlar, nunca sobre perder o controle. Culpar a vítima é outra tática em uma campanha de controle e poder, e tem funcionado com frequência. Ainda funciona. Violência masculina é uma certeza, e eram as mulheres que deveriam alterar suas vidas para evitá-la, e que eram culpadas não só pelos agressores mas também pela sociedade se não conseguissem.
Isso não era apenas intimidação pessoal ou gaslighting – em casos como o de Harvey Weinstein, times completos de advogados, espiões e ajudantes eram mobilizados para permitir que Weinstein continuasse suas décadas de assédios sexuais. O sistema judiciário cooperou de várias maneiras, incluindo os acordos de confidencialidade – instrumentos legais usados para silenciar vítimas uma e outra vez (apesar de, em 2019, a Califórnia tem banido esse tipo de acordo em casos de assédio sexual ou estupro).
Eu cresci há tanto tempo atrás que as roupas das mulheres, seus batons, dançar, dar risadas, sorrir, estar presente em um evento, ou estar sozinha, ou em determinado horário, ou praticamente qualquer coisa que não fosse uma freira trancada num quarto segurando um facão era considerado um convite. Coisas como dizer “não” não revogavam esse convite, que não estava em nosso arbítrio, mas em nossa essência. Você era o convite, gostasse ou não. Era culpa sua por ter existido em um corpo no mesmo planeta que homens que queriam algo de você. As mulheres obrigavam os homens a estuprá-las sendo muito atraentes, apesar de crianças e anciãs (e freiras) também sofrerem estupros.
As mulheres também obrigavam os homens a cometerem traição por não serem atraentes o suficiente. Era esperado que andássemos numa linha da espessura de um fio da teia da aranha, entre ser atraente demais e não o suficiente. Claro que essa linha se quebrava sempre, e as mulheres eram (e ainda são, aos olhos dos misóginos) muito ou não tanto suficiente ou os dois ao mesmo tempo. No horrendo caso de estupro em julgamento na França, no ano passado, no qual Dominique Pelicot drogava sua esposa, a estuprava e então a oferecia para que dúzias de outros a estuprassem, ele a culpo pelo que ele fez. A revista Newsweek informou que ele disse “foi culpa dela mesma, que não concordou em fazer swing [a prática sexual] com ele, de acordo com um psicólogo que testemunhou em seu julgamento”. E então vários homens que ele convocou culparam a ele [Dominique] por suas decisões de assediar sexualmente uma mulher mais velha profundamente inconsciente (ou disseram que assumiram que ele [Dominique] poderia garantir o consentimento de sua esposa). Eles colocaram a culpa nele, ele pôs a culpa nela.
“Ela o obrigou” também funciona na política. O exemplo mais recente é a declaração do Trump de que de alguma forma o presidente da Ucrânia, Zelensky, foi responsável pela invasão de seu país pela Rússia, declarando que “mas eles nunca deveria ter deixado aquela guerra começar”. A guerra começou com a invasão russa da Crimeia, em 2014, muito antes da presidência do Zelensky e bem dentro da presidência do Putin, então tem isso. Como Aaron Blake assinala, no Washington Post, “Desde os primeiros dias da guerra, o Trump frequentemente desvia o assunto de qualquer forma de culpa ser ligada a Putin… Quase todo comentário isenta Putin de arbítrio e coloca o que aconteceu como resultado de falhas do governo Biden (e agora do Zelensky).” O enviado de Trump, Steve Witkoff, também culpou a Ucrânia, dizendo que a Rússia “foi provocada”, como se a Ucrânia estivesse usando uma minissaia.
“Justo ou não, Zelensky está deixando o Trump nervoso. Seu estilo está prejudicando a Ucrânia?” pergunta uma manchete absurda no New York Times [o jornal], em uma “análise de notícias” que afirma que “sua estratégia com a administração Trump não funcionou com a Casa Branca, construindo não a empatia mas a hostilidade do presidente Americano”. O Trump acha que o Zelensky deveria ter apaziguado Putin, e o New York Times pensa que o Zelensky precisava apaziguar o Trump, mas nada vai agradar o ditador russo e seu fã americano favorito o suficiente a menos que se dê uma rendição completa da maior parte ou da totalidade do território e soberania da Ucrânia. Os comentários dos leitores são praticamente universalmente furiosos por esse enquadramento, e alguns deles salientam a lógica do “ela o obrigou”.
Tanto as invasões de Putin à Ucrânia quanto a insurreição de 06 de janeiro de 2021 relembram uma forma fatal de controle coercivo: o ex-marido ou namorado furioso porque ela o abandonou e, de alguma maneira, tenta de alguma forma aterrorizá-la para que retorne ou destruí-la, caso resista (especialistas em controle coercivo nos dizem que o período mais perigoso para uma vítima de abuso é assim que ela abandona o abusador). Em todos esses casos, há uma lógica de “como você se atreve” que nega o direito dela de escolher qualquer coisa menos ele, ou, na realidade, de ter qualquer escolha. Putin parece ter intenção de recuperar o que eles assume ser o poder e a glória da União Soviética ao anexar a Ucrânia (e aniquilando seu exemplo para os russos de uma antiga União Soviética se tornando uma democracia funcional com liberdade política para seus cidadãos). A invasão da Crimeia em 2017 seguiu a destituição do bandido pró-Rússia que Putin ajudou a colocar na presidência (seu nome era Viktor Yanukovych, e sua campanha foi gerenciada por Paul Manafort, que depois retornou para ajudar Trump a se eleger; Yanukovych fugiu pra Rússia quando os ucranianos se revoltaram contra ele).
Quanto à insurreição de 6 de janeiro – eu sempre me perguntei o que os sitiantes e guerreiros imaginavam que seria a imagem da vitória: será que eles pensaram que as nações ao redor do mundo e as pessoas dos EUA iriam se curvar e dizer “vocês destruíram bem o congresso, Donald Trump é o vencedor agora”? Depois da insurreição, Ted Cruz, num clássico ato de culpar-a-vítima, tuitou para Alexandria Ocasio-Cortez “Você sabe, tem muita raiva e fúria partidária no lado Democrático. Não é, não é saudável para o nosso país, certamente não conduz à recuperação de nossa unidade…”
O próprio Trump quase rotineiramente acusa seus opositores de intenções e crimes dos quais ele mesmo é culpado, incluindo esforços para fraudar eleições. É um fenômeno psicológico bem conhecido: “o mecanismo de defesa inconsciente que Freud chamou de projeção: a atribuição a outra pessoa dos motivos, impulsos ou emoções proibidos – e tipicamente malévolos – de alguém. Quando as pessoas projetam, o que é verdade sobre si vira uma verdade sobre os outros.” Trump especificamente é um dos mais prolíficos, desavergonhados e públicos praticantes da versão de projeção que a Dr. Jennifer Frey cunhou como DARVO em 1997. É um acrônimo para as palavras inglesas deny, attack, reverse victim and offender [negar, atacar, inverter vítima e infrator], uma técnica frequente de abusadores para transferir a culpa para as vítimas. Entre seus muitos movimentos DARVO, Trump tem acusado seus rivais de tentar roubar uma eleição e Zelensky de ser um ditador. Cruz estava se empenhando nisso também, quando estava mostrando os Democratas como encrenqueiros por não terem sido mais gentis sobre uma tentativa violenta de golpe.
No discurso mainstream, se tornou padrão culpar os liberais, a esquerda, feministas, Black Lives Matter, ações afirmativas, proteção ambiental, pessoas BIPOC (black, indigenous, and people of color – pretos, indígenas e pessoas de cor) e pessoas LGGBTQ pelos excessos da direita. É uma forma de garantir que a direita tem prerrogativas masculinas e a esquerda tem responsabilidades femininas pelo comportamento da direita. Também é comum que se culpe o partido Democrata pelo que faz o partido Republicano. Os dois partidos são considerados de forma inconsciente como similares a um marido e uma esposa num casamento tradicional, no qual é tarefa da mulher apaziguar e acalmar o marido, e fazê-lo alcançar seus objetivos ou ser responsabilizada por seus arroubos e indignações.
E, da mesma forma, a população diversa à esquerda do centro tem a tarefa de ser boazinha para a direita ou ser responsável quando a direita erra. Essas histórias resultam em “a esquerda foi tão chata com esses pronomes ou os liberais fizeram as pessoas se sentirem tão culpadas por causa de canudinhos de plástico que elas não tiveram outra escolha a não ser embarcar no retorno do Terceiro Reich e na destruição do planeta.” Por trás dessas histórias está a suposição de que algumas pessoas importam mais que outras pessoas, e que nós que importamos menos precisamos bajular aqueles que importam mais – conservadores quando são imaginados como hetero, brancos, homens, do interior, sal da terra, americanos de verdade, em oposição a nós, étnicos, imigrantes, urbanos, não-homens, não-heteros.
Mark J. Dunkelman lançou um artigo no [jornal] The Atlantic sob o título “Como as ideias progressistas destruíram o governo”, uma escolha carregada para o título num momento em que um golpe da ala direita está de fato quebrando o governo. Ele escreve “A América não consegue construir habitações. Não podemos implantar trilhos de alta velocidade. Estamos com dificuldades para levar adiante a promessa de energia limpa. E porque o governo falhou em todos esses campos – porque a confiança nas autoridades públicas se esvaiu ao longo dos anos – os progressistas têm encontrado dificuldades em argumentar suas defesas.”
Para considerar um dos seus exemplos, porque exatamente estamos com dificuldade para levar adiante a promessa de energia limpa, que é mais saudável no curto prazo, previne devastação ecológica no longo prazo e, quando a infraestrutura estiver no lugar, pode ser muito mais barata em doláres? Um enorme fator é a interferência dos interesses do combustível fóssil, a quem praticamente todos os republicanos servem de maneira devota e começaram, desde uma decisão do partido, a fingir que mudanças climáticas são uma farsa e uma teoria de conspiração liberal. Outro fator é a cobertura empobrecida sobre a questão na mídia mainstream, tanto em tornar suficientemente reconhecível a realidade catastrófica quanto fazer compreensíveis as excelentes soluções disponíveis. Mas no enquadramento aqui, a sabotagem de um futuro viável da ala da direita é culpa dos progressistas.
A sempre incisiva Rebecca Traister escrever na [revista] New York Magazine: “Especialistas e políticos de todos os espectros ideológicos se juntaram num raro consenso: que foi ‘identitarismo’, mais conhecido como ‘cultura woke’, que carregam majoritariamente a culpa do retorno destrutivo de Trump ao Salão Oval. Liberais e centristas chegaram a esta conclusão com uma velocidade e ardor só disponível a pessoas que vinham morrendo pra se vangloriar disso por anos. Esquerdistas proeminentes também estão a bordo, fazendo uma argumentação justa às custas de outra.”
De fato, políticas identitárias e direitos reprodutivos garantiram uma vitória democrata após a outra no levante que se seguiu à derruba de Roe vs. Wade [uma decisão jurídica sobre direitos reprodutivos] em junho de 2022. A grande vitória de Joe Biden, após o assassinato de George Floyd por um policial e o verão de protestos Black Lives Matter, ao mesmo tempo em que ele prometeu colocar uma mulher preta na Suprema Corte e proteger direitos reprodutivos e climáticos, pode ser observada como um sinal de que política identitária também pode ser política vitoriosa. Traiste assinala “aconselhar que democratas vem ficar quietos sobre ideias que simplesmente são a coisa certa a fazer e que motivaram milhões dos votos que receberam só reafirmam a pálida falta de sinceridade, e é, por essa causa, politicamente suicida.” É a política de apaziguamento, e não funciona com abusadores em qualquer escala.
Além disso, homens brancos heterossexuais são uma identidade também, e a direita empurra uma versão retrógrada e cheia de ódio dessas identidades públicas, apesar de ninguém culpar as políticas do indivíduo homem branco hetero pelas perdas dos republicanos. Nunca foi “ele a obrigou”. Essas identidades políticas são invisibilizadas ou tratadas como além da questão. Mas estou aqui para questioná-las.
Porque ela não o obrigou.