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Modus Operandi Masculino

era uma segunda-feira de carnaval. parei o carro na frente da padaria às sete e meia da manhã. vinha de lá um homem andando, sozinho. eu, que estava a caminho do sítio, estreava botas novas, dessas de caminhar nas pedras e na lama. depois da camisa laranja, típica do pessoal da limpeza urbana, o que observei foi a bota dele. muito mais bonita e muito mais cara que a minha.

desci do carro, ele me abordou à distância. coisa de gente que sabe como são voláteis as pessoas que moram em bairros de classe média-alta. posicionei meu corpo para ouvi-lo: não estava amedrontada, tampouco estava à vontade. ele começou a falar.

eu vou contar mais ou menos o que ele disse, mas já adianto o final: não fiz nada a não ser escutar e desejar boa sorte. e me esforçar herculeamente para não demonstrar no rosto e no corpo os julgamentos que fiz. só escrevo porque julguei em silêncio. ainda não decidi se isso constitui caridade, visto que não tomei nenhuma ação baseada nesses pensamentos, ou se é a eterna canalhice hipócrita de supor que existe jeito certo de levar a vida. a ver.

ele começou [com a pior carta que tinha nas mãos] dizendo que era professor de piano. suponho que queria ser visto como “igual”, pessoa de valor. no meu mundo, toda profissão tem valor, exceto aquelas cuja função exclusiva é infligir sofrimento. em seguida, ele informou porque estava em situação de rua há cinco dias: a mulher conseguiu um mandado de segurança que o afastava 500m da residência. bandeira vermelha hasteada. ele disse que tinha sido violência verbal. continuei ouvindo.

em seguida, ele localizou em palavras mais ou menos onde era a casa, disse que veio de lá andando, que pediu ajuda. criticou as igrejas, que era “irmão, Jesus te ama”, mas que ainda assim ele permanecia sem banho há cinco dias. disse que tinha tentado dormir numa praça, mas que todo mundo tinha faca ou estava armado, que ele simplesmente não tinha conseguido. repetiu que precisava de banho.

então ele mostrou a bota, descolando o solado, repetiu que estava andando desde que foi afastado da casa da mulher [não sem adicionar a marca do tênis e o comentário “isso é de marca, é caro!”]. falou um pouco de ter tentado trabalhar, mencionou que já tinha sido funcionário em restaurantes de uma conhecida avenida do bairro [e eu pensei “ué? e o piano?”]. mostrou também a pele sem tatuagens, disse que era de família militar, que não se envolvia com coisa errada [e eu internamente contando o bingo dos preconceitos e imaginando que deve ter sido mais um no cordão da direita política desses tempos sombrios], e por um momento quase deslizou ao dizer “não posso chegar a 500m da casa e ela já pôs outro lá dentro”. [nem li o inquérito ou os fatos que levaram ao mandado, mas minha intuição já concorda com a mulher, a essa altura] ele respirou fundo e repetiu do desalento, a falta de banho, a falta de sono.

foi aqui que fiz minha intervenção. disse, com a mais simples gentileza, que desejava sorte, e que não havia o que eu pudesse fazer pra ajudar. [eu tinha dedicado minha atenção e meu tempo, como é de meu hábito] ele abaixou a cabeça, desolado, e saiu. [e eu não consegui deixar de marcar que era um homem de pele, olhos e cabelos claros, e que em momento algum ele conseguiu verbalizar qualquer pedido.] depois de me interceptar, desfiar educadamente suas lamúrias e ocupar minha atenção [de um jeito que chamou a atenção de outras pessoas chegando à padaria], ele sequer pediu ajuda. fiquei imaginando se ele esperava de mim alguma proposta.

outro dia citei a bell hooks em conversas, muito impactada por esse trecho: [em Ensinando a Transgredir] “Nós fazemos seu curso. Aprendemos a olhar o mundo de um ponto de vista crítico, que leva em conta a raça, o sexo e a classe social. E não conseguimos mais curtir a vida“.

meio que joguei o moço no mesmo balaio de tantos outros, em situações completamente distintas. o rótulo que os une me pareceu ser esse: o pavor que sentem do risco de ouvir um não ou uma negativa os consome de tal maneira que eles passarão horas me fazendo observar seus valores e anseios, mas nunca conseguirão verbalizar um pedido direto que depende da minha vontade pra se concretizar. esperam que eu me sensibilize e tome pra mim os problemas que são deles, porque certamente apresentarei uma solução. e aí toda a responsabilidade da imperfeição dos resultados é minha.

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