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desabafos diário

Só eu.

talvez não seja muito clara a intenção desse texto, mas isso não diminui a minha necessidade de escrevê-lo

Em dias como hoje, o divã me faz falta. A terapia, ora veja, não está em dia. Isso inclusive me lembra a piada que li recentemente: “terapia em dia até o Tony Soprano tinha”. Tony Soprano, no caso, o perigoso mafioso da série da HBO, The Sopranos.

Miro o divã porque não me sinto confortável em dizer as coisas que quero dizer, não para ouvidos que continuarão por perto, no dia-a-dia. Não sei precisar se o problema é o quanto eu teria que me explicar, ou se tem algo sobre eu não querer que as pessoas lembrem que eu disse isso, algo como uma incerteza e uma necessidade de não errar.

Tem ainda a ideia, que pode ser fantasia ou talvez seja fato, de que as escolhas que fiz (e venho fazendo) e os caminhos por onde guiei a minha vida são tão diferentes do que (eu imagino?) as outras pessoas têm feito que ninguém me entenderia de fato. Aquela parte “uma em um milhão” que o ego insiste em demarcar. É como se eu me conectasse aos amigos por um, dois ou alguns mais temas, sintomas, interesses ou traumas em comum, mas que nunca coubesse falar do somatório, porque não há ninguém que seja assim tão parecido comigo para me acolher.

Já não sei, também, se o que faço tem alguma lógica. É sempre perigoso quando eu rondo essa pergunta – o fraseamento mais direto sendo “qual o objetivo disso?” pra qualquer isso. Não tenho fé pra crer em sobrenatural ou destino – exceto às vezes, quando só o louvor ao poder do aleatório consegue me mover. O que faço, com quem faço, que hora faço… São sempre semeaduras? Tenho ciência das sementes? Vou lembrar de cultivar? Ou, mesmo não cultivando, a colheita permanece compulsória?

Faço planos tolos – tipo voltar a usar salto alto – e tento não fazer metas audaciosas. Lembro que, às vezes, o objetivo que almejo envolve várias etapas que evito. Crio uma confusão entre o desejar e o lidar com as frustrações. Me iludo que há como controlar a intensidade da emoção, atenuar desconfortos, me proteger daquilo que me alcança à revelia do meu desejo.

Toda essa energia mental fica pulsando cá dentro da cuca, sem válvula de escape. Ora imagino um alguém com quem essa conversa flua com ternura e bem querer, ora flerto com a ideia de retiro espiritual com votos de silêncio. De tanto ponderar, dou mais uma série de passos não planejados, perdidos e sem rumo. Cada um deles gasta energia, e nenhum deles parece encaixar como o último quadradinho da fila do tetris.

Mais maluco que tudo isso, me esquivo mesmo agora de pormenorizar tudo o que me aflige. Corro o risco até de, em algumas semanas, não entender nada do que registrei até aqui. De onde eu tava chegando? O que tanto mexeu comigo? Como eu decidi encher mais uma página desse blog?

Para contexto, acabei de voltar de um baile de dança na Passo Básico – cuja sede nova eu ainda não conhecia. Além das pessoas com quem conversei no baile, falei com o homem que cuidava dos carros na rua, e com o outro que vendia balas no semáforo. Cheguei em casa com uma angústia esquisita, um choro embargado sem raiz explícita. Me lembrei com raiva do descaso dos vizinhos com a vida em comunidade, nessa rodada girando em torno do portão da garagem que, com uma falha, tem sido deixado aberto por gente que simplesmente nem confere, nem olha, nem se importa. Dei uma checada no app de paquera e, mais uma vez, umas rejeições esquisitas – eu sou muito ruim nessa coisa de frustrações. Olhei também os emails, e vi a Amanda Palmer dissertando de modo fluido sobre as pelejas de seu mundinho. Li um pouquinho das coisas da rede social de texto, o bluesky. Abri o editor do blog. Desandei a digitar coisas. Não faz sentido. Ou talvez amanhã faça um novo sentido.

Só eu. Eu. Só. Somente? Sozinha? Exclusiva? Eu digitei esse título sem pensar demais. Sou a protagonista do meu viver, mas olhei pros lados e estranhei as outras personagens. E lembrei que elas protagonizam suas próprias vidas. E eu, só, sigo a minha. Pelo menos posso dizer que sei ser só – às vezes não gosto. Que pavorosa seria a exigência de sempre ter alguém comigo. Mas hoje eu queria alguém comigo. E não tem. Então texto. Então divã. Só. Eu.

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