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Tempo: é dinheiro?

…o preço do tempo varia muito de uma vida para outra. Dinheiro não compra tempo, não te dá tempo a mais.

Tem muita coisa na minha cabeça ultimamente. Muitos pensamentos ficam querendo virar texto, mas não conseguem atingir o nível de prioridade que precisa pra vir pra cá. Às vezes eles viram publicação na rede digital de textinho, em outras simplesmente se esvaem no tic-tac do relógio. Hoje eu tentei vir.

Passei novembro e dezembro muito preocupada com o futuro próximo. Bastante desesperada, esse é o adjetivo correto. Escrevo e deleto várias vezes a frase que me assusta, e vou tentar essa versão mais suavizada: não tenho um salário compatível com meu nível de gastos e ainda não determinei a maneira de obter esse dinheiro. Ao mesmo tempo, esse desespero não é tão arrasador assim, afinal eu ainda não determinei uma maneira de obter esse dinheiro – e já estamos há mais de dois meses nessa realidade…

Quando veio janeiro, eu achei que as coisas ficariam dali pra pior. Historicamente, já faz mais de década que eu não me preocupo tanto assim com a virada do ano, com o marcador social de ano novo e coisas do tipo. Até defini minha virada pessoal pra coincidir com o meu aniversário, momento em que eu tento refletir sobre o que passou e planejar o que quero dos próximos meses. E o janeiro me surpreendeu.

Primeiro que eu não viajei. Até tinha convite, podia ter apertado as contas e feito uma extravagância. Não senti vontade. E isso foi muito estranho. Eu sempre quero viajar, não se confunda, mas dessa vez foi meio que “fica pra uma outra hora, um momento melhor”. Quase uma calma de afirmar pra mim mesma – e acreditar! – de que vai mesmo ter uma chance melhor em breve, acreditar sem nenhuma prova em mãos. Será que eu finalmente estou desenvolvendo algum tipo de fé otimista?

Segundo que as metas para o ano™ ficaram se jogando nas minhas ideias. Compartilho, sem maiores pudores, o que meus neurônios decidiram:
meta 1: recusar o medo, especialmente o relacionado ao dinheiro, sempre que factível. (é difícil explicar, sempre vai ter o medo, mas eu hei de achar um jeito de lidar com ele, uma forma que não seja só aceitar a ameaça e tentar sanar a qualquer custo)
meta 2: aumentar o número de nãos – a tarefas, a convites, a coisas que ocupam o tempo. (2025 foi muito cheio de sim, eu tive bastante dificuldade de fazer as pazes com o cansaço, já que eu disse cada um dos “sim” da jornada)
meta 3: ao dirigir, não ultrapassar o limite de velocidade da via. (meta com “não” é esquisita, mas a redação fica mais complicada sem ele.)

E tem ainda essa experiência esquisitíssima de que eu tinha me prometido abandonar as redes digitais, mudar os hábitos na internet de uma forma mais radical, e acabei interagindo mais, fazendo mais conexões e gastando mais tempo online, só que de um outro jeito que eu ainda não sei explicar e também não sei se dura muito tempo.

Uma das argumentações para a primeira meta tem a ver com o fato de que eu sobrevivi a esse primeiro ano totalmente novo. Se em dezembro eu tinha desculpas socialmente construídas – encontros de final de ano, feriados, etc – para gastar o meu tempo como eu bem queria, em dezembro eu precisei trabalhar a ideia de que o tempo realmente é meu, agora. Eu gasto como eu achar que devo. Assim como o meu dinheiro. E o mundo não me puniu por isso.

E aí estava eu quando resolvi que precisava parar de só pensar essas coisas, que estava mesmo precisando redigir algo sobre o assunto. Por longos e longos anos, minha vida lado B só podia existir enquanto não houvesse turbulência no lado A. Pra quem não conviveu com músicas e álbuns no vinil: o lado A eram os hits e o que pagava as contas, enquanto o lado B era o autoral, aproveitando a gravação e agradando mais aos fãs mais ardorosos. E o meu lado A tomava tempo e energia, e os desejos do meu lado B não paravam de se multiplicar. Ainda que todos os atos da minha existência como adulta funcional tenham sido tomados em sã consciência (vá lá, quase todos), nem todos foram frutos do meu desejo. A forma como eu gastei muito do meu tempo estava intimamente relacionada às minhas expectativas de ganho real a partir desse investimento. Nesse sentido, meu tempo poderia ser dinheiro.

Tempo não é dinheiro. E o preço do tempo varia muito de uma vida para outra. Dinheiro não compra tempo, não te dá tempo a mais. É bem verdade que pagar por certas conveniências economiza algum tempo, mas é uma barganha. Se colocar mesmo na ponta do lápis, é uma falácia. O tempo que você suou para fazer o valor em dinheiro é maior, menor ou igual ao tempo que você está economizando ao pagar pela conveniência?

A culpa que eu sentia em descansar – ou tentar, já que pensar no que ainda tinha pra fazer me cansava mesmo se eu não estivesse fazendo nada – tem diminuído. É difícil falar desse assunto, parece que me falta a linguagem. Toda descrição que eu construo esbarra na imaginação de que não vou ser compreendida, já que a leitura vai se dar num contexto de gente que, mesmo a contragosto, vive a experiência da xepa do capitalismo, o fim que o neoliberalismo parece trazer dessa versão de mundo. Eu ia dizer que não ter compromissos na agenda, datas de entrega ou prazos de execução é mais difícil do que parece, no início. Depois de tantos anos correndo na rodinha da gaiola, a sensação de estar parada dá um pouco de tonteira. E nem sempre é parada. Muitas vezes é fazendo o lado B totalmente sem fins lucrativos. Outras é dormindo mesmo, lendo mesmo, vivendo apesar dos outros, do que esperam ou do que vão dizer. E o grande exercício tem sido me convencer de que isso é válido.

Amanhã, assim como em outros dias da semana, eu vendo algumas horas do meu tempo. É um contrato, também. Não deixa de ser uma concessão, uma vez que preciso levar em conta a disponibilidade de quem me contrata. Diferente da ocupação anterior, eu vendo muito menos horas por semana. Também diferente é a remuneração que vem dessas horas. Viajar, por exemplo, mudou completamente de figura nos últimos anos. Comer, vestir, tudo precisou ser repensado. Nada saiu da minha vida, mas nada está exatamente como antes.

Vou tentar fazer um corte brusco nessa divagação, resumir minha motivação de mudança de uma maneira bem simplista. A minha realidade hoje é que dou mais valor ao meu tempo do que ao dinheiro dos outros. Não posso prescindir de dinheiro, já que a vida em sociedade exige quantidades relativamente grandes dele, mesmo para vidas modestas. Ainda assim, prefiro tempo livre na minha vida modesta do que quantidades (nem tão) grandes de dinheiro ligadas a uma existência angustiada, com tempo roubado pra coisas que já não fazem sentido (algumas nunca fizeram). Meu tempo até pode ser dinheiro, mas eu leio as letras miúdas desse contrato e decido se vale mesmo a pena assinar.

2 comentários a “Tempo: é dinheiro?”

Tava te respondendo no notepad para colar aqui mas tava ficando uma missa. Eu tô parecido contigo: não acumulei muita grana, fui expulso da minha própria empresa pelos acionistas majoritários pois pedagogo não combina com o capetalismo deles. Mas o que eu gostei foi da tua frase: “eu ainda não determinei uma maneira de obter esse dinheiro “.
Eu gostaria de ter essa “determinação”, que parece bem abrangente. A minha é fazer algum dinheiro com a gibiteca (editais, coisas que demoram anos ou meses), conseguir uma vaga como professor ou como agente cultural. Talvez vender toda a coleção de HotWheels que fiz com o meu filho ou todos os gibis e livros. Só coisas que me dariam bastante trabalho e pouco dinheiro. Mas incrivelmente estou tranquilo. Com a grana do financiamento coletivo pago 4 prestações da casa e com a poupança magra, pago as minhas contas por 6 meses. O abismo financeiro é logo ali… Pareço o louco do tarot (aquele do Rider) e o amanhã cuida do amanhã. Talvez seja o tempo de estrada, as operações no coração ou o gostoso sentimento de estar pela 1a. vez na vida me dedicando 100% do tempo para a sociedade.
Saí da 1a. camada da Matrix tarde (na verdade para mim ela é tipo uma cebola) e quase 25 anos depois eu acho que entendo razoavelmente bem as engrenagens do uberliberalismo e decidi desde 2019 ir contra a corrente. Cansei de vender as horas do meu tempo para a TI que não agregam nada ao meu IUVAS (Índice de Utilidade da Vida à Sociedade) e isso é ser privilegiado. Angústia de vender a casa, o acervo e os pequenos luxos materiais não tenho. Posso morar tranquilo nim quarto e sala se puder levar meus bichos e a biblioteca pedagógica.
Como entendo que tu deva ter bem menos anos que eu, te parabenizo por esta reflexão e pelas metas para o ano. Já sobre a velocidade, merece um puxão de orelha :P. Use sabiamente o tempo e sempre que possível trabalhe na e pela coletividade na qual tu possa se encontrar (a minha foi a das HQs). Assim podemos dormir tranquilos e certos do nosso propósito e com sorte, bem longe da próxima depressão. Abração!

Você entrando pra educação (latu senso), eu saindo dela.
Nunca estive efetivamente dentro das engrenagens da matrix profunda – eu sempre trabalhei com educação. De certa maneira, sinto que trabalhei em prol do futuro e da coletividade, acho que eu tinha um índice IUVAS até bem alto (risos)!
O primeiro plano, quando colocado na ponta do lápis, era entrar na TI (você saindo e eu tentando entrar). No balanço da carroça se ajeitaram algumas abóboras e eu percebi que a engrenagem não ia me deixar em paz. Mudei muito – muito mesmo – nos últimos três anos. Apesar de saber que seria capaz de ter boas performances em alguns campos de atuação, escolhi um só, e tenho tentado apostar nele. Meu perfil conservador não é bom de apostas e eu ainda titubeio com frequência, mas é o mais perto de determinação que cheguei até aqui. Preencho o campo “profissão” dos formulários com “tradutora”. Ao mesmo tempo continuo deixando a torneira pingar com uma ocupação que eu tinha suspendido há uma década: ensino as pessoas a dançar a dois. E isso ocupa algumas das minhas horas, me remunera, mas nada a contento. É provisório (há 2 anos e meio… e contando!) e eu vou tentando fazer enquanto ainda faço com amor.
Outra coincidência é esse planejamento mental de “pior dos casos”. Eu também pensei nas coisas que poderia vender. Tenho 2 ou 3 planos sobressalentes – nenhum muito feliz, mas todos factíveis. E, no processo, a vida foi mostrando que tem outras coisas possíveis. Sempre que páro pra meditar sobre isso tudo, percebo que tá tudo fluindo de escolhas que foram feitas devagar e ao longo de um período muito mais longo do que eu considerei quando decidi virar a chave. Eu até tinha uma reserva de segurança – ela durou 8 meses, depois eu pedi paitrocínio por algum tempo e depois eu consegui ficar de pé de novo já trabalhando em um projeto de tradução. E por isso a meta 1, parar de ter medo. É novo, é diferente, exige adaptação, mas ao mesmo tempo tem um brilho todo novo pra curtir, incluindo a posse do meu tempo.
E a posse do meu tempo traz a meta 3, e recusa o seu puxão de orelha: minha CNH é de 2001, e eu tenho um total de 6 multas desde então. 3 são de estacionar onde não devia ou sem obedecer a todas as regras, 1 de conversão em sentido proibido e 1 de avanço de sinal. Só uma foi de radar de velocidade, eu estava em comboio e fofocando com os coleguinhas no carro, passei por um agente da PRF sem notar. O ponto é que eu tinha o hábito de tirar a diferença de leves atrasos fazendo uma direção mais arrojada – sempre defensiva, mas rapidinha. E isso tinha adicional de ansiedade. Eu tentava fazer só mais uma coisa porque “vai dar tempo”. Então, esse ano, o plano é dirigir devagar. Não pelo trânsito, pelo carro ou coisa que o valha. É pelo hábito e pela mudança de atitude mesmo.

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