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Fale ao motorista somente o necessário

Comunicação. Uma habilidade necessária para alguém que decidiu trabalhar como professora. Ainda assim, certamente você convive ou conviveu com gente que falava mais ou que falava menos, na sua jornada de estudante.

Perfeccionista, introspectiva e pouco dada a falar sobre o óbvio, passei muitos anos de minha vida profissional equilibrando porções ideais de falar e ouvir. Só falar não ensina muito, só ouvir ensina muito pouco. A conversa dá voltas, encontra pontos de consenso e leva a novas ideias, compreensões e, claro, perguntas. Desenvolvi e continuo praticando a comunicação dentro dos espaços de aula.

Quero dizer: não sou uma completa falha comunicativa! Quando o assunto me interessa (ou é compulsório), me desenvolvo razoavelmente bem. Por escrito, então, me sinto ainda mais confortável. A escrita dá espaço pra escolher as palavras mais meticulosamente, testar o gosto das palavras combinadas, sem que qualquer pessoa precise participar. Lapidado, o discurso fica mais eficiente, mais claro, ou propositalmente discreto, divertido.

Desde sempre, desde que me entendo por gente, nunca me interessei por conversas superficiais. O silêncio me deixa mais tranquila do que as amenidades. É como se eu tentasse andar por aí com uma plaquinha nas costas, com os mesmos dizeres daquela nos ônibus, sobre o motorista: “fale somente o estritamente necessário”. Pra dizer a verdade, eu nunca pensei nisso como exigência de que as outras pessoas não conversassem sobre o que elas queiram. Eu só me reservo o direito de não responder, e me retirar inclusive.

Essa postura, como é de se esperar, nunca foi muito bem vista aos olhos das pessoas ao redor. Se alguém não me conhece, é fácil assumir que eu seja chata. Foi muito simples, confortável até, vestir essa carapuça. A minha plaquinha pessoal: sou chata, mantenha distância. De vez em quando aparece uma pessoa mais corajosa, mais atrevida, e desafia a minha plaquinha. A idade vem chegando, e o número acumulado de pessoas corajosas que já o fizeram vai aumentando. E talvez venha mudando também a construção do “estritamente necessário”.

Acho que essa é a grande pergunta. Esse é o ponto sensível. Pra uma pessoa introvertida, conviver em pequenos grupos sociais (3 ou 4 pessoas no máximo) com assuntos que interessam ao grupo inteiro é o limite do social. E, por mais alegre e confortável que seja o evento, vai precisar ser seguido por um período de isolamento e silêncio (ou boa música). As pessoas extrovertidas se alimentam do convívio, conversa, percepção de coletividade – ou foi isso que eu ouvi falar. É fácil entender que o estritamente necessário a ser dito por um grupo é muito distinto do outro.

Algumas das pessoas que se infiltraram no círculo das pessoas-com-quem-posso-bater-papo-por-horas, algumas dessas heroicas almas ajudaram em outro ponto particular: assuntos aleatórios podem ser convertidos com sucesso em estritamente necessários. E era bem nisso que eu pensava quando tive a coceira de escrever esse texto. Sempre amei aprender. Escutar ajuda muito. Nos últimos anos, muita gente tem ignorado minha plaquinha, puxado assuntos variados e esperando ativamente a minha resposta. Isso tem sido estranho. Minha zona de conforto é no aprendizado, não na transferência do que eu colhi. Explicar é coisa de sala de aula, uma outra zona da minha vida, com papéis bem definidos de interlocução. E me peguei aqui, pensando: a placa de advertência está claramente desgastada. Será a hora de conseguir uma nova? Ou tirar de vez de cena?

2 comentários a “Fale ao motorista somente o necessário”

Ora, ora… que belo blog temos aqui!
Pois fico muito feliz q embarcamos em uma conversa estritamente necessária sobre viagens q durou um tempão e me colocou (pelo menos eu acho q colocou, né) nesse círculo aí. 🙂
Minha opinião? Deixa a plaquinha, mas amplia seu conceito de “estritamente necessário” hahaha

dentro do círculo? sim. tirar a plaquinha? a ver. gostou do bloguinho? todo feito a mão! 🐜 bem vinda!

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