Antes que alguém me acuse de caçadora de cliques, vamos esclarecer: eu não sei como parecer interessante, muito menos tenho ideias pra você aplicar e parecer interessante. Muito antes, pobre de mim, muito antes, pelo contrário.
Eu nunca soube paquerar. Nunca. Quase uma disfunção social. Não sei nem reconhecer se estou, por acaso, sendo paquerada. Houve um tempo em que a frase “sou legal, não tô te dando bola” era uma espécie de meme. Nessa época a gente ainda não falava meme. Sou de outra época, já sou dessas que diz “no meu tempo”. Pois bem, esse era o meu pior pesadelo. Se alguém estivesse sendo legal comigo, era só isso, alguém sendo legal. Não foi das melhores contribuições para a minha autoestima essa eterna sensação de nunca ser paquerada.
Me pareciam interessantes as pessoas que tinham o controle. Que agiam, se moviam, falavam com convicção. Usei o tempo verbal que indicaria a minha adolescência, mas estou aqui, ponderando se era passado mesmo. Se ainda observo as pessoas com a mesma lente. Acho que ainda me encanto muito por quem tem prazer e maestria no que faz.
De qualquer maneira, uma conclusão que, na época, tirei dessa ideia é bastante pragmática: se acho interessante quem apresenta postura de estar em controle, o melhor caminho para me fazer atraente era, óbvio, agir como se eu mesma estivesse em controle. Essa relação esquisita de poder me fazia tentar mostrar a um possível alvo de afeição que eu, aquela moça bonita que ele estava vendo, estava muito ocupada sendo sensacional, e o alvo da afeição me acharia incrível por isso. Bastante lógico, né? E muito, muito esquisito.
O resultado dessa encenação, como se pode prever, é que não parecia muito atraente tentar romper a minha bolha de espaço pessoal. Se eu estava assim tão ocupada, claramente não fazia sentido tentar falar comigo. Eu até parecia interessante, mas ao mesmo tempo não estava ao alcance. E sim, parece exagerado em texto, mas eu tenho uma historinha pra contar pra vocês. Senta aí pro flashback.
O ano é 1996. O cenário é festa de rua, numa cidade no interior sul fluminense. Estou sentada na escada da igreja, entre primos e amigos, encarando de longe os lindos olhos azuis de LP, que eventualmente me sorri e cumprimenta, e se vai. Na tarde seguinte estou eu pelas ruas da mesma cidade, em busca de uma compra específica no centro comercial. No caminho de volta pra casa (da minha família de lá), LP vem batendo papo comigo – ele mora na mesma rua da casa pra onde vou. Ele me convida pro cinema na noite seguinte (ou foi na mesma? agora não lembro). O único cinema da cidade está exibindo O Corcunda de Notre Dame. É o que temos pra hoje. Dessa saída começou o meu primeiro relacionamento. Eu e LP namoramos por meses, à distância. Naquela época, crianças, no século passado, a internet não era tão onipresente. A gente se ligava no telefone que ficava fixo na sala de casa (era caro) e trocava cartas (era barato e dava trabalho, mas era ótimo). Numa dessas cartas, LP descreveu a Dri sentada na escada da igreja com as seguintes palavras: “te vi lá, sentada, com ar de inatingível”. I-NA-TIN-GÍ-VEL. Eu sorrindo e encarando.
Fim do flashback. Se você é uma pessoa de fé, envie boas vibrações pro LP: ele faleceu no mês passado, mais uma das incontáveis vítimas da COVID19. Que sua alma encontre paz.
Até hoje, não tenho um gesto exato nem sei como me portar. Se você perdeu a referência, estou citando parcialmente uma canção chamada “Fórmula do Amor”. Continuo sem saber como me apresentar se quero parecer interessante. E, pior: não consigo mais contar com o desejo de ter um corpo sarado ou uma figura sensual, ou mesmo de me interessar por alguém assim, porque não tenho a menor intenção de transmitir a alguma criatura o legado da minha genética (aqui eu invoquei o Brás Cubas, você percebeu?). As pessoas que me encantam o fazem pelo que dizem, pelas ações, pela maneira como se colocam no mundo. E isso só fica perceptível no convívio, nas interações duradouras. Num tempo de tanto aplicativo, pegação e flexibilidade, as regras ficam cada vez mais complexas (ou talvez só eu as ache ininteligíveis). E assim, as chances de encontrar um alvo, me fazer interessante e provocar novos inícios vão ficando cada vez mais esparsas. Eu sou interessante, mas só pra alguns olhares. E tudo bem. E demora pra ver, tem que focar com cuidado. Já tentei por mais de 25 anos (acho), e sinto que vou jogando a toalha. Adoto o “amor é sorte”. E, cara ou coroa, vou jogando as moedas pro ar.