O recesso do meio do ano é uma das partes mais cobiçadas da profissão de professora. As outras profissões precisam se contentar – por enquanto, ao menos, elas têm esse direito – com 30 dias de férias no ano. Isso conseguido com muita luta política, e facilmente dispensado com uma boa canetada mal intencionada. Mas não é esse o assunto que quero tratar. Num outro momento talvez eu discorra sobre as muitas coisas que fazer terapia tem me mostrado sobre a minha vocação, mas isso é papo pra outro dia.
Hoje é, sábado, terceiro dia de recesso de julho em 2021. Estamos atravessando uma pandemia há longos longos longos e aparentemente eternos meses, e recentemente voltamos a uma nova modalidade de ensino presencial que é, na verdade, híbrida: profe tá na sala, estudantes aqui e ali, e muita gente ainda assistindo pelos programas de computador que passamos a dominar no ensino remoto. É ensino híbrido emergencial, ou algo assim. E isso tornou o final das aulas, pouco antes do recesso, ainda mais cansativo. Então eu só considerei que comecei a descansar hoje, terceiro dia dos dezoito dias dedicados à parada técnica do meio do ano.
Tendo resolvido várias pendências na quinta e na sexta, hoje me permiti ignorar o relógio. Eu podia olhar, me manter informada, mas nada nele me daria ordens. Assim sendo, acordei antes do sol nascer, como é de costume do meu corpo, levantei, fui ao banheiro, bebi água, deitei de novo e li um pouco, até dormir novamente. Acordei um pouco depois, sol forte entrando pela fresta da cortina. Fechei a cortina, li mais, vi as redes sociais, cochilei. Acordei mais uma vez, li mais um pouco, troquei de livro, comemorei o fim do primeiro livro nas redes sociais, interagi um pouco, fiz a tarefinha de alemão, comemorei o 365º dia de sucesso no app, fiquei com fome, fui pra cozinha. Na passagem pelo corredor, cogitei mudar a decoração, fazer algo novo, mas desisti e deixei pra outra hora.
Lavei um terço da louça, enquanto assistia ao GregNews pelo youtube. Tomei um café simples, enquanto assistia a outras coisas no youtube. Acabei num vídeo de uma moça que fez do seu 4×4 recém adquirido um acampamento móvel (lá nos estazunidos). No vídeo, ela teve um probleminha na ignição, chamou alguém pra ajudar, tinha ferramentas na imagem. Lembrei que eu queria checar a bateria do controle do alarme do meu recém-adquirido 4×4, peguei minhas ferramentas, fui fazer isso. Fui tirar uma foto, pra facilitar a identificação quando for comprar a nova bateria (tudo no celular, essa nossa nova condição de existência), mas a imagem não estava muito clara. Peguei meu kit novo de lentes, a lente de macro, e fiz uma foto fantástica. Do lado do kit estava um eletrônico que eu estou pra abrir e conferir as conexões há meses. O vídeo da moça acabou, coloquei a Bia Ferreira pra cantar pra mim (o programa ShowLivre, super recomendo) e fui mexer no aparelho. Testei todas as conexões, limpei, vou ter que comprar baterias novas pra ver se é isso.
Percebi que a minha mala de ferramentas estava zoneada, fui limpar e organizar a maleta. E de repente me peguei entendendo porque eu sempre acho que nunca dá tempo pra nada. Eu já sei, racionalmente, o que vou escrever agora, mas é que fica mais esfregado na cara, de vez em quando. Eu quero muita coisa. Quero mesmo, penso, planejo, consigo as ferramentas. E não dá tempo de nada. E ainda tem as coisas que eu até gosto de fazer, mas a obrigação e a rotina e as forças externas colocam um tempero ruim, e às vezes fica difícil de cumprir.
Cuidar de mim e da casa. Lidar com as responsabilidades do carro, da vida adulta, do emprego. Viajar. Aprender. Defender causas em que acredito. Interagir socialmente. Ler por prazer. Comer (e preparar o que comer, e lavar tudo. Eu odeio lavar louça.). Consertar coisas e entender como elas funcionam. Produzir artesanato, arte, concretude. Pensar planos. Tirar fotos. Olhar pras fotos. Eu já mencionei a parte de preparar as viagens? Escrever, ler e escrever mais. Consumir cinema, televisão, música – e outras artes, com menos habilidade. É muito. Nunca dá tempo de tudo. E sempre está ali, ao alcance do desejo. Sentei pra escrever tudo isso e me incomodei com o descanso de tela, fui consertar. Descobri que o programa não foi reinstalado (tive que formatar meu windows semana passada), fui reinstalar, e ajeitar a imagem, e só depois sentei aqui pra escrever. A mensagem, pra mim mesma?
Cuidado, Adriana. Tempo de ócio NÃO É tempo de fazer novos planos. Não cabem muitos mais quereres. Você já quer coisa demais. Espera voltar a rotina antes de inventar novas modas. Talvez você possa, sei lá, terminar o replantio do seu hortelã, que você planejou pra maio (?). Termina as coisas. Pára de começar novas. Just stop for a moment.