Começou alguns meses atrás. Uma tristeza contínua veio me abraçando e tomando espaço no meu corpo, através da minha mente.
Não tinha comida gostosa, filme sensacional ou novidade das pessoas queridas que me tirassem dali. Claro que dei risadas sinceras, gargalhadas até, e também desejei o bem, do fundo do meu coração. Olhei pro céu, pros pássaros, pras aves, achei bonito e senti gratidão. Mesmo assim, a tristeza não cedia.
Comprei um antigo sonho de consumo. Foi uma batalha, muito mais em jogo do que dinheiro e bens materiais. Haja terapia pra ajeitar tudo o que mudou em mim, toda a erupção que culmina nas coisas que gente de fora consegue ver. Comemorei a vitória, mas a tristeza estava ancorada.
Fui buscar meu remédio supremo: viajar. Ele não pode ser administrado de maneira leviana: demanda preparo, execução cuidadosa, e tempo livre. Esperei as férias, planejei o caminho e a estadia, e imaginei que seria bom como sempre é. Não foi.
Claro que comemorei o sucesso da empreitada: minha primeira vez dirigindo 10h sozinha, primeira vez com o carro novo, primeira vez no litoral do estado de São Paulo. Coincidiu que minha estadia foi exatamente quando uma frente gelada chegou ao país, tornando a praia impensável pro meu horário convencional: antes de 9h30 e depois de 15h30. Teve também a parte em que eu supus, pela pesquisa prévia, que haveria menos gente por todos os lados – ainda sou profundamente medrosa com o SarsCov-19 – e isso me intimidou. Muita gente, muito nariz de fora, muita angústia.
A tristeza era tal que eu chorei. Sentada, sozinha, de frente pro mar, e chorando. Aquela lágrima, a pior lágrima, a que vem de dentro, sem rótulo, sem explicação convincente, sem uma história clara de mocinhos e bandidos, motivos ou lógicas. O meu melhor remédio para tristeza simplesmente não fez efeito.
As semanas seguintes foram complicadas. Adultos funcionais numa sociedade capitalista não andam cabisbaixos por aí logo depois de comprar o sonho de consumo e passar uma semana na praia. Especialmente se não tem uma história triste que abone o mau humor. E pessoas tristes funcionam mais lentamente, com menos eficácia. Meu coquetel estava pronto: muito cansaço, acúmulo das tarefas, sentimento de culpa, desânimo. Me afastei dos mais queridos, aqueles que têm as chaves do meu mundo, não conseguia ser sincera – e eles aceitaram meu “estou triste, não sei a razão”. Como todo bom amigo, queriam ajudar a sair dessa, mas eu nem sei direito o que está acontecendo, então fui ficando cada vez mais calada.
Hoje é domingo. São 12 de setembro. Ontem, pela primeira vez em muitas semanas, vi uma fresta de luz nessa escuridão. No dia 10, sexta-feira, fiz o que a vida adulta exige e fechei um ciclo das tarefas do trabalho (fechar diário de etapa é extremamente simbólico), e sabia que essa culpa não viria para o fim de semana. Me programei pra vir pro mato e, mais que isso, decidi não trazer outro objetivo senão o ócio. Escolhi fazer o caminho menos óbvio – literalmente não pegar a rodovia, fazer a escolha deliberada de dar voltas e passar por um trecho maior de estrada de terra, desnecessariamente.
No início foi ruim. Muita volta, obedecendo contrariada ao navegador gps, num caminho que eu mesma mandei ele traçar. Mas aí, em certo momento, a paisagem ficou bonita demais pra ignorar. Obedeci ao desejo impulsivo de parar à sombra da árvore e fotografar. Senti gratidão pela existência daquilo tudo, e da minha presença ali. Pouco depois aconteceu o inesperado. A estrada estava em péssimas condições, e tive a chance de colocar à prova as qualidades do meu novo carro. No meio do caminho, senti a musculatura do sorriso sendo ativada. Eu sei qual era, porque há muito não usava. Um sorriso genuíno tomou meu rosto, uma alegria besta, tão intrínseca como tem sido toda essa tristeza. Foi bom, foi bonito, trouxe ânimo e esperança.
E aí eu cheguei à casa do mato do meu pai, encontrei a geladeira desligada e com mau cheiro porque não havia energia elétrica. Guardei a lembrança da minha alegria honesta (até pra poder escrever sobre ela) e fui ser adulta, resolver problema de gente grande.
No fim, foi uma dose muito pequena de luz para o tamanho da treva. Mas existiu. Honesta e real. E achei por bem registrar.