Saúde mental, sanidade, corpo são em mente sã. Ouso afirmar que não há quem discorde da necessidade desse equilíbrio para uma boa qualidade de vida.
As palavras que tenho ouvido, que ecoam e ressoam nos meus pensamentos sobre o assunto, são “atividades terapêuticas” e “terapia”. A primeira diz respeito ao que você faz para se permitir respirar, apesar dos problemas. É sobre ter passatempos, conversar com amigos, fazer coisas que trazem prazer, passar um tempo afastado do estado mental incômodo que desequilibra o bem-estar. Faz bem, é claro. Ameniza o sofrer. E, infelizmente, não soluciona os problemas.
A segunda, qualquer que seja a forma (psicodrama, terapia comportamental, psicanálise, musicoterapia, etc.) inclui ajuda profissional capacitada, treinada, que guia o caminho para uma possível solução dos problemas. E, infelizmente, nem sempre ameniza o sofrer com tanta propriedade assim – pelo menos pra mim, a psicanálise é pouco prazer e muito, muito trabalho.
Comecei a fazer terapia muitos anos atrás – me assustei quando percebi que faz mesmo muito tempo. Foram 8 anos com a primeira terapeuta, uma pausa de quase um ano e meio, e agora estou há pouco mais de 2 anos com o segundo profissional. E sim, tenho ferramentas muito melhores pra lidar com o mundo e com as interações sociais que fazem parte da minha vida. Ao mesmo tempo, estou longe, muito longe da sanidade – e um pouco tem a ver com pandemia.
A sessão de hoje, que teve pontuações de sessões anteriores, coisas que estão na pauta faz muito muito tempo, me deixou tentando entender porque, apesar das ferramentas, da racionalização e da terapia, continuo nesse estado estranho, nessa forma de insanidade. Por muitos meses, pude dizer que “eu tô estranha, mas tudo tá estranho”, já que havia isolamento, incertezas, um mundo em suspenso. Mesmo com toda guerra, toda dúvida e toda dor, o mundo lá fora está retomando um ritmo. E eu não consigo acompanhar. Uma espécie de pavor, de confusão e incerteza, uma tristeza e desesperança me deixam estranha ainda, e as outras pessoas não estão mais estranhando o mundo, o que realça meu mal estar social. O mundo está se reinventando e eu continuo aqui, sem mapa e sem bússola, e por isso sem coragem de dar um passo à frente.
E foi aí que as duas expressões do começo do texto bateram fundo. Faço terapia, e sem ela estaria francamente em frangalhos. O espaço de escuta e a devolutiva do profissional que me acompanha são luzes muito importantes pra reduzir a escuridão das minhas dúvidas. O que anda me faltando, que eu achei que a pandemia tinha tirado, é a atividade terapêutica. É sentir prazer nas coisas, sentir alívios na dor, é ter paz pra ficar de pé e analisar o horizonte. O estado de calamidade pública tirou esse chão, mas aparentemente agora sou eu quem se recusa a levantar. E, peça chave nessa compreensão, o estado de calamidade foi um decreto, uma lei, um comando para todas as pessoas, sem distinções. O retorno? Pequenas rebeldias, tentativas individuais que foram contagiando e aumentando em número e em abrangência.
Na primeira sessão (e em muitas sessões subsequentes, e de vez em quando, por picardia), eu insistia na expressão “eu só queria que a vida tivesse um manual de instruções”. Foram mais de seis meses até eu aceitar que não tem. Culturalmente, se você olhar pro lado, tem alguém te dizendo o que é o certo e o que é errado. Não foi simples processar que ninguém, nenhuma dessas pessoas sabe exatamente do que está falando. E talvez eu esteja aqui, de novo. O estado de calamidade pública causado por um vírus invisível aos olhos e perigosíssimo ao organismo veio com uma espécie de manual: fique em casa, lave as mãos, evite pessoas, use máscara. Isso eu sei fazer. E agora, que o mundo é outro, não tem manual. Não tem jeito certo.
Pior: porque eu passei tanto tempo dentro dessas regras, sair delas não me parece natural. Dá trabalho, gasta energia, provoca desconforto. E assim eu ando cansada, ansiosa, angustiada, triste. Não tem atividade terapêutica que caiba nesse manual. E eu preciso achar um jeito de sair dele. Não vai dar pra recuperar sanidade só com terapia – ou pelo menos foi isso que entendi do que o terapeuta me disse hoje.