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Sala de cinema

Por um momento. (Para Igor e Rebecca)

Há muitos anos, muitos mesmo, eu não ia ao cinema. Tenho visto muita coisa em streamings, às vezes em telas um pouco maiores, outras em telas um pouco menores, mas o cinema eu tinha deixado de lado. Um pouco era a preguiça da fila, do ingresso, do shopping, do estacionamento. Um tanto era o preço, a distância, a trabalheira. Desde criança, depois quando adolescente e jovem adulta, ia muito – era um programa constante. E fosse com alguém, sozinha, com grupo, tudo valia. Eu gosto da sala de cinema, da experiência. O que me desvia está, em geral, fora da sala.

Nessa sexta-feira, pouco mais de três horas antes da sessão, recebi um convite. Colegas queridos, uma professora e um professor, com essa chamada assim, de última hora. Meu dia não tinha sido lá muito calmo, mas achei que dava tempo – e deu – e que seria um bom encontro – e foi. Eles escolheram a sala, o filme, as cadeiras, compraram o ingresso, tiraram toda a burocracia! Assim fui eu, chegando não mais que cinco minutos antes do início da sessão, sem fila, sem perrengue, sem perturbação.

Vou cometer a audácia de não citar aqui o nome do filme a que assistimos. Se um dia quiser falar sobre isso, me chama, eu converso. É que meu foco tá em tantas muitas coisas pra depois da história do filme… É minha história de estar lá. Então paciência, por favor.

Das primeiras minúcias: não estava tão cheio assim. Achei isso diferente, sou da época que sessão de sexta à noite era mais cheia. Pessoas chegaram atrasadas – nós também. Pegamos o primeiro trailer, teve quem só chegasse com o filme começado, procurando seus assentos com aquela incômoda lanterna do celular na cara dos outros. Gente fazendo gentisse.

Eu esperava que o ar-condicionado fosse me refrescar do calor que tem feito até agora, em março!, cheguei a levar uma echarpe, tão esperançosa estava dos poderosos sistemas de ar-condicionado. Senti calor. Estranhei. No meu tempo cinema era geladinho.

Meus colegas escolheram poltronas ótimas, aquelas posições centralizadas, com boa visualização da tela. As salas menores, comparadas com as da minha adolescência, parecem aumentar o ângulo do anfiteatro/plateia e reduzir o número de cabeças na frente do campo visual – mas também fez com que o coleguinha de trás esticasse a perna de maneira a colocar seu sapato praticamente ao lado do meu descanso de braço. Sim, eu percebo e sou afetada pela posição relativa de perfeitos estranhos à minha volta. É quase um refrão, de tanto que se repete em minha vida.

A densidade da obra que assistimos me faz pensar, uma ou duas vezes, na impossibilidade de dar pausa e tomar uma água, ir ao banheiro, comer alguma coisa, fugir da proposta do autor. Eu tinha esquecido como o cinema é imersivo e como controla a nossa atenção com propriedade e firmeza. Outras escolhas nessa obra ficam mais óbvias na tela do cinema do que ficariam na tv de casa: a deliberada redução do espaço da imagem para um antigo formato quase 1:1, quase quadrado, desprezando as laterais, que talvez seja descartada ou readaptada para consumo (quando?) se essa obra for pra outras mídias, por exemplo. Essa escolha, e também o cenário, provocam emoções quase tão fortes quanto diálogos e atuações.

No começo do filme, quando a gente ainda está se acostumando com as personagens, eu passei um bom tempo analisando a fisionomia de uma atriz que me lembrou muito outra conhecida profissional de Hollywood. Ia divagando por essas escolhas padronizadas da tradição estadunidense de filmes mainstream, mas não durou muito: a história te arrebata.

No início, me senti incomodada com as relações, suas intensidades (por que ela faria isso? pra que ele entrou na história? será que isso é razoável, qual motivo isso teria na vida real?), mas lentamente a coisa se encaixa e alguns aparecem como verossímeis, outros como o diferente importante para a existência de uma história para contar.

As representações de amor e das relações de afeto erótico estão recontadas em fotos ou falas, nunca em imagens contínuas – ou quase nunca. Achei que essa foi mais uma decisão cuidadosa e deliberada, com o mesmo intuito (ou efeito?) de outras mensagens: esse não é um filme alegre, você não vai dar risadas soltas, não se permita relaxar… É absurdamente surreal, cá no meu cérebro de exatas, que um grupo de pessoas que não me conhece consiga construir uma obra com tamanho impacto nas minhas emoções. E isso, me lembrei, é cinema.

Por fim, a história de duas horas, relativamente simples e bem amarrada que se conta nessa obra nos deixou sem ação, sem palavras, sem jeito. Há muito tempo não saia da sala com tamanho silêncio tapando minhas palavras antes que o cérebro às entregasse às cordas vocais. O não-dito grita, as alegorias se apresentam ora mais óbvias, ora mais sutis. A sensação é de que qualquer palavra pode provocar um dano cujo conserto não está ao alcance.

Confesso que achei o final da história destoante da narrativa construída. Estou reclamando só e exclusivamente da cena final, que nem ao menos me pareceu poética – e eu quis que terminasse em poesia. Não termina. Não abranda, não acolhe, não acalenta. Encerra. Finaliza. Te avisa que acabou, que já não há porque permanecer na sala. E ficamos. Meio mudos, meio tentando entender se todos estavam bem. Ficamos, até acabarem os créditos. Ficamos até acenderem as luzes. Saímos por último. Meu retorno às salas de cinema foi tudo, menos trivial.

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