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Monogamia

MONOGAMIA. A origem da palavra nos faz imediatamente pensar em mono, único, singular. Monogamia é, portanto, o relacionamento em que um homem e uma mulher se relacionam exclusivamente entre si.

Um homem e uma mulher? Seria razoável estender essa classificação a outras possíveis combinações? A depender de quem defende e como defende, todas as respostas entre sim e não são possíveis, inclusive essas duas. Para fins da linha de raciocínio desse texto, vou assumir um casal monogâmico cis e heteronormativo. Não é uma escolha arbitrária.

Muitas escolas de pensamento vão contar que a monogamia nasce na gênese da posse e da herança. Se tudo que um homem possui e que torna sua vida particularmente melhor ou diferente de outros precisa ser passado a seus herdeiros, é importante garantir que sejam de fato herdeiros. A escolha de “homem” também não é frívola: posse, propriedade e herança, na narrativa eurocentrada, é uma prerrogativa de homens. Assim, as heranças e descendências dependem da garantia de que, em reprodução, o primogênito da mulher seja de fato filho do homem. Claro, aqui ainda cabe poligamia – os casamentos de um homem com várias mulheres, cada um deles ocupando hierarquias de tempo, por exemplo.

(A título de curiosidade, a palavra que especificamente indica casamento de uma mulher com vários homens é poliandria, muito menos comum nas discussões. O número de resultados do buscador para a palavra poligamia é aproximadamente 20 vezes maior que o da palavra poliandria – em 0,33s há aproximadamente 3.730.000 resultados para a primeira e 187.000 para a segunda. Monogamia tem 3.390.000 no mesmo tempo, pouco menos que a poligamia.)

Em uma pesquisa rápida, é fácil encontrar descrições de casamentos de outras épocas como uma forma de estabelecer alianças e conquistar aliados, constituindo relações diplomáticas e laços econômicos. Dizem que, até o século XI, eles eram arranjados pelas famílias dos noivos, para perpetuar alianças ou a manutenção do poder econômico familiar, tramando conexões entre famílias com posses maiores ou de tamanho similar. O consentimento, por exemplo, só teria se juntando à tradição a partir de 1140. Numa sociedade mais dinâmica e moderna, em que os casamentos se modificaram (evoluíram?) para relações de amor, a ideia de se casar com a primeira namorada ou o primeiro interesse afetivo ou sexual já não parece razoável ou ordinária: é mais comum que se vivam algumas experiências enquanto adolescentes ou jovens adultos, e que a decisão de casamento se dê numa idade mais tardia que a simples maturação dos órgãos reprodutivos. Então começa a sessão de inquietações: o que são essas outras relações – também de uma mulher e um homem entre si – que precedem o matrimônio? Desse desconforto pode-se trazer a expressão “monogamia em série”, que também se aplica à noção moderna de que, para perseguir a felicidade, é justo e válido que se processem divórcios e novos matrimônios.

Monogamia, até aqui, passa a ser a relação entre um homem e uma mulher num tempo determinado. O sucesso seria aferido por essas três variáveis:

  1. a mulher só se relaciona com um homem
  2. o homem só se relaciona com uma mulher
  3. quanto mais longeva a relação, maior a medida de sucesso

Para proteger essa tríade, a categoria casal passa a receber uma classificação de relevância superior à de outras relações. Pra que a relação seja longeva, é importante que ambos se mantenham comprometidos. Pra que se comprometam novamente a cada tempo, é importante permanecerem engajados. Se, por acaso, surge interesse externo à vida do casal, esse pode colocar em risco o engajamento e provocar crise. Assim, pra que “a mulher da vida dele” não se sinta enciumada, ameaçada ou triste, um homem modifica todas as relações com outras mulheres, garantindo que não haja nenhuma chance de insinuação quanto ao seu comprometimento ao projeto do casal – ou pelo menos é a prerrogativa monogâmica teórica. Da mesma maneira, uma mulher reorganiza suas prioridades para satisfazer às expectativas do “homem de sua vida”, seja evitando posturas que possam indicar abertura a outros homens, seja reduzindo sua vida social a oportunidades em que a presença seja sempre do casal, nunca sozinha. Há um apagamento de cada indivíduo em prol do brilho do casal.

A consequência comum dessa postura e desses cerceamentos é a construção social e cultural dos papéis de mulher e homem num esquema em que casal é uma entidade de qualidade superior às suas individualidades. As atitudes e estéticas de mulher e homem se constróem e se reforçam na contínua tarefa de tornar longevo o compromisso desse homem com sua mulher, e dessa mulher com seu homem. A narrativa típica vai contar que, a partir de certa fase da vida, solteiros (pessoas fora da monogamia) são amigos de solteiros e têm suas festas e costumes em separado, até que encontrem alguém que os complete e, a partir de então, possam viver as festas e costumes dos casais. Os posicionamentos se impõem diametrais, excludentes, binários e concorrentes.

Quando se assume que essas características estão de fato dadas na expectativa social de um casal monogâmico, dá pra entender que o prefixo mono, cujo antônimo pode ser poli ou multi, não encerra todas as verdades sobre o arranjo. E é daí que se insinua o movimento de revolução, a contracultura, e a construção da não monogamia política. A não monogamia é muito mais ampla que o número de pessoas envolvidas em relações com um indivíduo, assim como a monogamia é muito mais do que decidir beijar uma só boca para o resto da vida.

E o que é, então, a não monogamia política? É isso que estou tentando entender. Aos poucos, sem atropelos, vou encontrando as palavras que parafraseam muito do que ouço e sinto. Por hoje, queria estabelecer que ser monogâmico ou poligâmico não são, em definitivo, as únicas opções.

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