O que eu não conseguiria dizer, nem mesmo se você criasse coragem de aparecer na minha frente, não desiste de ocupar espaço nos meus pensamentos. Se não digo, escrevo. E sigo.
O não que você me disse é um tanto disforme. A gente nunca conversou sobre, a gente não tinha um acordo, eu nunca soube o que você colocava na caixinha que convencionei chamar de “nós dois”, entre aspas. Eu tentei te mostrar algumas imagens do que eu tinha colocado de esperança na caixinha, mas a verdade é que você nunca perguntou, e muito menos falou do que você via, pra além do que eu disse. O seu não pra “nós dois” é um dos mais cruéis que eu já experimentei.
Pra começar, a última vez que te vi pessoalmente, a última vez que você me abraçou e me beijou, foi um momento de planos. No dia seguinte você usou a frase que era tão linda, tão poética, e que agora machuca tanto. “Nossa… me deu uma vontade tão grande de embolar com você”. Você sabe usar as palavras. Você é gentil. E a gente se acertou, ali, em algum tempo. Três dias depois e você desistiu de tudo. Eu ainda não me convenci que ali já estava o fim.
Foi tudo tão abrupto que eu precisei de subterfúgios pra me organizar e processar o que estava acontecendo. Escolhi uma armadura, a que eu conseguia sustentar, mas você encontrou as rachaduras, e ficou completamente confortável. Se havia barreira, era eu quem tinha colocado, mas você ainda me alcançava, e isso te bastava. “Win-win”, você disse, mas não era. Era vitória pra você, e um jeito de não me despedaçar pra mim.
Pus um prazo na armadura, calculista e analista, procurando justificar o que você deixava de fazer, achando possíveis e plausíveis explicações. Sabia que eu cheguei a imaginar que eu tinha inventado essa emoção toda, que era tudo fantasia minha? Quando, um pouco mais calma, tentei me ausentar, entendi o tamanho da minha paixonite. A minha ideia de tudo o que a gente ainda poderia desfrutar juntos era atraente demais pra aceitar que era um desejo unilateral. Eu não queria decidir pelo ponto final que não era a minha vontade, e você não queria decidir nada – você já estava em vitória.
O prazo acabou e você deixou escorregar, acho que sem pensar, a frase que me perfurou. Eu achei que o nosso afastamento tinha a ver com a sua agenda, a princípio, e com a minha armadura, por um tempo. E você afirmou que tinha a “agenda cheia de nada”. Ou seja, não havia desejo suficiente pra ocupar o seu tempo comigo. Isso me feriu de uma maneira descomunal.
A gente já tinha se confessado, nenhum dos dois gosta de se explicar. Eu nunca vou entender o que está subentendido no seu não – até porque você continua a flertar com a ideia de me ter por perto, de um jeito que talvez exista em algum momento do futuro. Só que você tá insistindo agora.
Agora, toda vez que você fala comigo, eu lembro que te pedi um tempo pra retornar, pra recomeçar de outro lugar. Não quero te explicar que suas mensagens me lembram de você dizendo feliz que é bom acordar comigo. Da sua carinha linda, me olhando de espreita, respeitando que eu pedi pra não ficar tão perto quando o fogão tá aceso, e vindo me encher de chamego tão logo ele fosse desligado. De andar pela cidade encostada no seu corpo, você enlaçando minha cintura. De todas as coisas que estavam na nossa lista, para quando você estivesse de férias, aposentado, ou alguma outra forma de tempo livre. E, claro, de que é inconcebível você me achar assim tão incrível como me fez acreditar que acha, e mesmo assim decidir que longe é melhor.
Hoje eu pensei em te dizer que vai ficar difícil matar toda essa esperança se você continua procurando a minha atenção. Tenho tentado me afastar, mas algo em mim ainda não se convenceu a partir para a grosseria. Tá difícil demais, eu não consigo te deixar no vácuo. É que eu ainda tô muito mais triste que com raiva. E não faz nem uma semana esse meu luto.
Às vezes solto uma risada amarga, pensando que “pelo menos eu não tenho taças de vinho em casa, eternizando isso tudo”. Eu joguei o seu vinho fora, a propósito. Eu queria muito te machucar, te ferir, fazer doer em você como tem doído em mim, mas já tô bem grandinha pra saber que isso nem existe – eu podia até tentar fazer alguma coisa, mas possivelmente seria em vão. Aí eu só desperdicei o vinho mesmo.
Enquanto eu não matar a esperança, vai ser esse perrengue. Eu já usei o equivalente a três bíblias em argumentação coerente, mas o coração é burro demais. Eu nunca confiei nele, mas aparentemente não dá pra viver sem ele. Desligar os afetos, bem sei, é mais problemático do que pode parecer.
Dos quatro dias desde que eu te pedi uma resposta e você me entregou um não (que eu ironicamente chamo de “no eres tu, soy yo”), você falou comigo em três. Eu digo “você falou” porque estou fazendo um esforço hercúleo pra me afastar, e você continua querendo saber de mim. A verdade é que eu quero te contar de mim. Eu quero te contar encostada na sua pele. Eu quero te contar andando pelo mundo, mãos dominantes livres pra enfrentar batalhas. Essa esperança é do tipo resistente, aparentemente. E só existe em mim. Pra você, hoje, é não. E eu que me vire com isso.