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uma não-carta

essa carta nunca deveria ter sido escrita.

essa carta nunca deveria ter sido escrita. se aqui se apresenta é por tantas vezes ter se ditado à minha mente, de forma tão exaustiva que levou à rendição. que essa carta exista é prova de que minha saúde mental já tem baixíssimos níveis de discernimento. solicito, portanto, que esqueçamos seu conteúdo logo que lido. o ditado tem tantas pontas, tantos começos, que me perco. vamos do fim: você já sabia. não era novidade, sutileza ou entrelinha, ele tinha literalmente dito “eu não sou bom em relacionamentos”. e você não pode fingir que não leu, posto que sempre foi leitora atenta. o que pensou? que sua presença era mágica e anularia a afirmativa? certamente não quer que eu aceite que você considerou como um depoimento leviano. eu sei e você sabe que ele não brinca assim, não faz parte do repertório. talvez você tenha caído no conto da super-heroína, tenha lido como missão e passado a compreender como tarefa a possibilidade de torná-lo excelente em relacionamento. como se você tivesse ferramentas, conhecimentos ou técnicas que nenhuma outra mulher no mundo tentou usar. seria realmente fantástico, e você seria tema de odes e lendas. vai ver é essa a sua fantasia, hein? a mulher que o ensinou a se relacionar. é isso? ele disse, e isso ronda todos os seus pensamentos. ele disse uma única vez, e você sabe que essa é a chave de saída que ele nem precisa usar, porque você mesma a coloca nesses diálogos mentais inacabados. ele nunca afirmou que queria mais. foi você quem disse. foi você quem verbalizou. e ele tem feito as escolhas dele, você notou? pare e repare: ele não está em estado catatônico, encurralado ou de qualquer maneira forçado a ações. muito antes pelo contrário, ele tem uma obstinação nas palavras. ele sabe onde quer ir, traçou o caminho e está seguindo o trajeto, tão fielmente quanto podemos agir em relação a planejamentos. e você não está no plano, nem na ação, nem na cena. você não faz parte das escolhas. você se oferece, ele aceita quando em vez. e você acha que dessa vez venceu, que qualquer vagalume é sinal de estrela, galáxia, universo. ele disse, em tom claro. o que te atrapalha é essa coisa sem razão de se perceber apaixonada. ele nunca escondeu. foi você quem escolheu se meter nessa complicação. ele aceitou brincar de relacionamento, ressalvando que não segue as regras ou não as sabe. se o jogo era de dois e ele já entrou café-com-leite, carta-branca, então você sozinha vai ter que fazer as duas partes do jogo. fica a dica: isso não existe. precisa de dois. e ele te avisou. é só você que pode se tirar desse impasse. e a outra possibilidade é permanecer no impasse. mas mesmo isso é você quem tem que decidir. ele não tem culpa se você fica e se machuca. ele não tem culpa se você sai se dilacerando. ele tem a salvaguarda, ele avisou, ele disse. você? você sabia. disse. você? você sabia.

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