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É o que é

O mundo dela encontrou um obstáculo de proporções gigantescas, que muda completamente o caminho. Eu, daqui, vi o desenrolar da notícia, sem ter nenhuma verdadeira conexão com nada, a não ser ser ouvinte da narrativa.

Receber notícias ruins é desagradável em qualquer tempo.
Algumas vezes tudo já parece tão ruim que as notícias chegam só pra refrescar nossa noção de que tudo pode piorar. Pra nós, para os que amamos, para os que nos importam…
Nos momentos de calma – ou seria horinhas de sorte? -, aqueles em que a vida apresenta mais presentes que desafios, que a alma respira em paz, também neles, sem mais nem menos, chegam as notícias ruins.
Vinha eu me recuperando de notícias atrapalhadas, mas nada tão ruim assim. Como obstáculos pequenos, as coisas se sucediam, tornando o caminho mais árduo e cansativo, mas sem interrupções que levassem a grandes desvios. Vislumbrava um lindíssimo horizonte, estava a caminho de uma viagem com promessas de bálsamo, a começar pela paisagem da estrada.
Na última parada antes do destino chegaram notícias ruins. Não das que alteram o meu caminho imediatamente, mas dessas que modificam a saúde de quem importa muito pra gente que eu amo, ou seja, alteram o caminho de quem está bem perto. Nessa relação longa, recíproca e respeitosa existe um equilíbrio que permite estar atenta para ser colo e manter uma distância de segurança, aproveitar o prazer da rara viagem.
Enquanto fazia as pazes com essa dinâmica, me entreguei a descansar e desligar, cercada de água e natureza. Pouco mais de dois dias e meu corpo já sente e manifesta o bem-estar dessa breve fuga dos meus problemas, desfrutando férias que lhe merecem o nome.
Assim estava, irradiando paz de espírito, quando se aproximou de mim, ali na beira da piscina, a vizinha-na-pousada. Ela e um amigo dividiam o quarto ao lado do que estávamos, e ela puxou papo comigo.
Se apresentou, a Vizinha, com sua trajetória de estar em curso a quarta graduação, numa cidade pequena do interior de Minas Gerais. Começou na escola (eita tema recorrente), tanto na História, Sociologia e Filosofia, quanto na próxima graduação, Pedagogia. Antes da atual, Biblioteconomia, seguiu pela Assistência Social, e nela encontrou o descomunal cansaço e a imensa indignação de se ver diante do pior que um ser humano pode fazer ao outro. Foi aqui que a Vizinha tocou o meu feminismo, e mencionou as duas filhas, 17 e 7 anos, sua preocupação com elas num mundo tão misógino, e o cuidado com as próprias relações, também nesse sentido de preservação de si e das suas. Certamente não foram essas as palavras que ela usou, mas sou melhor em paráfrases que em citações. Me disse também da incomum história de ser mãe solo, sem ter permanecido casada ao pai das meninas, mas elas terem um único pai.
Ainda nesse papo, a Vizinha me contou que o amigo com quem aqui estava morava em outro estado, e está de viagem marcada para outro país, de forma que decidiram usar esse tempinho juntos pra descansar.
Todo esse contexto sobre vida alheia tem dois objetivos simples: o primeiro, preparar o cenário para a próxima cena. O segundo, deixar meus amigos mais íntimos dando risadinhas contidas, me imaginando nessa longa conversa com uma até então desconhecida.
Pois bem. Na manhã seguinte, ao sentar para o café da manhã, no restaurante da pousada, notei que a Vizinha falava ao telefone, agitada e chorosa. Se afastava da mesa onde estava o amigo e continuava ao telefone. Ato reflexo, passei a prestar atenção (mulheres que se preparam para apoiar mulheres). De longe, não tinha muito o que entender ou fazer, mas já lamentava a sina dela, que dependia dele pra sair daqui, com tudo claramente em desacerto.
E aí veio a reviravolta da história. Ela veio até mim e contou exatamente o que estava acontecendo. O tal pai das filhas tinha sofrido um AVC, e os médicos afirmavam que não havia mais nada a fazer. E ela aqui, a duas horas de casa, onde as filhas estão sendo protegidas da notícia até que ela chegue.
Ofereci o que tinha, um abraço calmo, e ouvi o que ela quis me dizer, que incluía a percepção de que a escola das meninas, de que ela tinha falado com tanto orgulho, não teria mais o aporte financeiro do pai. O mundo dela encontrou um obstáculo de proporções gigantescas, que muda completamente o caminho. Eu, daqui, vi o desenrolar da notícia, sem ter nenhuma verdadeira conexão com nada, a não ser ser ouvinte da narrativa.
As notícias ruins da humanidade me afetam, umas mais e outras menos. Essa me deixou inquieta, e em outras condições eu contaria pra uma amiga, num desabafo, pra seguir o dia. Acontece que a destinatária desses desabafos é justamente a da primeira notícia desse texto, aquela recebida ainda na estrada, e não convém adicionar mais infortúnio ao prato dela.
Assim sendo, de caso contado e devidamente desabafada, sigo meu dia de sorte minha, de paz no meu mundo, de calma para minha mente. O mundo tem outros temperos. A vida é o que é, e hoje, pra mim, ela ainda está sol, água e paz.

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