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A lebre e o jabuti

(DE 2 DE ABRIL DE 2007)
Página trezentos e dezesseis
A lebre e o jabuti
Conta a história que a Lebre e o Jabuti encontraram-se pela floresta certo dia. Como brincadeira dos deuses, dois animais tão estranhos se olharam, se gostaram, mas seguiram seus rumos, cientes de que eram muito diferentes.

Acontece que, a partir daquele dia em que se notaram, o Jabuti e a Lebre passaram a se encontrar com freqüência em diversos cantos da floresta. O Jabuti saía pra passear entre as flores e, ao chegar, encontrava a Lebre brincando por lá. E a Lebre decidia passar por perto do riacho, e encontrava o Jabuti se refrescando na água fria.

De repente, Jabuti e Lebre começaram a pensar que talvez não fossem assim tão diferentes um do outro. Se gostavam das mesmas coisas, e tinham se sentido tão bem um na presença do outro, talvez não fosse tão estranho assim que se gostassem. E passaram a ficar mais próximos, juntos, sempre que possível.

No começo foi fácil, já que freqüentavam os mesmos lugares da floresta. Aos poucos, a Lebre quis que o Jabuti conhecesse um pouco mais adiante, lugares onde a Lebre ia e que o Jabuti ainda não tinha alcançado. O Jabuti bem tentou, mas pra ele era difícil acompanhar os passos apressados e frenéticos da Lebre. Se esforçava, mas sentia que irritava a Lebre. Eram lugares lindos, como uma fantástica cachoeira bem depois da montanha. Por melhor que fosse a vista, no entanto, o Jabuti se sentia cansado demais para aproveitar.

E quando o Jabuti disse à Lebre que não conhecia muito mais do que aqueles poucos lugares onde ela já o tinha visto, a Lebre achou que o Jabuti estava se escondendo e não queria mostrar os seus lugares especiais. Pensou que o Jabuti tivesse desdenhado de seus sentimentos e não quisesse compartilhar o melhor da sua vida com ela. Ela não percebia que o Jabuti tinha prazer puramente em sua companhia, independente do lugar da floresta em que estivessem. Era inconcebível para a Lebre que os passos lentos do Jabuti fossem de sua natureza, e não uma mera opção. Ela estava disposta a tentar qualquer coisa que o Jabuti quisesse, mas não percebia que ele estava satisfeito com o pouco que suas possibilidades ofereciam.

E a Lebre começou a achar o Jabuti um preguiçoso. E o Jabuti passou a definir a Lebre como desesperada.

Passaram a se encontrar menos. O Jabuti sentia falta da Lebre, mas ela queria aproveitar a força e a velocidade de suas pernas, e correr o mundo. As ausências da Lebre foram ficando maiores, cada vez maiores. Um dia eles perceberam que, exatamente como se sentiram à primeira vista, eram animais muito diferentes. E deixaram de se esforçar para ficarem juntos.

Jabuti e Lebre ainda se encontram pela floresta. Cada encontro enche os dois de pensamentos paradoxos sobre como gostavam da companhia um do outro, e ao mesmo tempo como era ruim não conseguir dividir plenamente todas as coisas que gostavam. Mas lhes serviu a lição de que o ritmo de cada um não era errado. Eram apenas individualmente diferentes e, portanto, incompatíveis.

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