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Cérebro eletrônico

Antes de qualquer palavra minha, preciso contar que meu próprio cérebro tem um ritual de completar a expressão “cérebro eletrônico” com a letra da canção do Gilberto Gil, de 1969: “o cérebro eletrônico faz tudo, faz quase tudo, mas ele é mudo“.
Escrevo muitos anos depois da canção, no meio de 2024, quando as discussões sobre alcance e possibilidades de inteligência artificial já estão banalizados no cotidiano das pessoas. Por um lado, muitos falando de tudo aquilo que essa tecnologia especificamente tem como potencial para melhorar a vida de pessoas que dela possam usufruir. Do outro, o medo crescente e difuso de que a ferramenta seja aplicada de tal maneira que se torne uma máquina de geração de sofrimento para as pessoas – alguns até vaticinam o fim da humanidade, como prometem algumas obras de ficção científica.
Eu, de cá, passei por um episódio bem bestinha, mas que me deixou com esse desejo de desenvolver ideias por escrito. No mês passado eu esqueci de agendar o pagamento do boleto do condomínio – e a culpa foi desse hábito já concreto de terceirizar a minha memória no gerenciamento de prazos. Em linhas gerais, nunca perco a data do pagamento porque a empresa responsável pela cobrança vai invariavelmente mandar um email avisando o final do prazo, quer eu esteja lembrando ou não. Desta vez, no entanto, o aplicativo no meu celular que maneja meus e-mails travou, e eu não recebi a notificação. Meu cérebro orgânico só se lembrou um dia depois, e arquei com o pagamento da multa de mora.
Esse episódio me deixou pensativa sobre como alguns hábitos do meu cotidiano estão vinculados às funções e possibilidades do meu smartphone. Eu uso gps e navegação com frequência infinitamente maior à que uso mapas. Já não decoro o telefone ou email de ninguém – nem anoto seus endereços de maneira organizada fora do telefone.
Uma vez eu ouvi, num episódio de série, essa ideia de que já somos meio androides, porque parte de nossas vidas está em pequenas máquinas – sejam notebooks, computadores, tablets ou smartphones. Por não precisar confiar na minha memória, acabo exercitando pouco a sua habilidade, e me torno parcialmente dependente da ferramenta.
É ainda mais louco pensar que nada disso estava disponível no início da minha adolescência: internet, notebook e celulares eram coisa de gente endinheirada. E que, aos poucos, essas inteligências externas à minha foram se tornando – receio dizer – imprescindíveis.
Consigo enxergar um elo entre tudo isso e o medo sem precedentes que as pessoas têm em relação ao aumento absurdo do uso de inteligência artificial. Se passamos de fato a confiar que as máquinas façam uma parte do nosso trabalho mental, podemos nos prejudicar em, no mínimo, dois cenários distintos. Em um deles, as máquinas estão interligadas, processando vorazmente toda a informação que cada um de nós fornece, produzindo um conjunto de dados infinitamente superior ao que qualquer ser humano jamais poderia sistematizar ou aprender – e assim se tornam senhoras do mundo, nos fazendo servos delas. No outro, uma catástrofe natural interrompe completamente a possibilidade física do funcionamento dos equipamentos, nos deixando apenas com os conhecimentos que nossos cérebros orgânicos ainda conseguiram reter – e nos levando a um cenário de retrocesso e dificuldade de sobrevivência em sociedade.
É mais razoável imaginar que nenhum dos dois cenários vai se concretizar. Ou pelo menos não durante o tempo da minha vida. Pode também ser reconfortante lembrar que os cérebros eletrônicos e inteligências artificiais não são as únicas formas de apoio que usamos. Analisando friamente, a humanidade constrói a sua história produzindo ferramentas que suprem necessidades ou que aumentam, de forma inegável, habilidades de seus corpos limitados. Quão longe você chegaria sem automóveis, bicicletas, aviões? O que comeria se não conseguíssemos criar, manipular e controlar o fogo? Sua vida seria a mesma sem facas, sem tesouras?
O cérebro eletrônico – e todas as formas que se encaixam nessa categoria – é só uma ferramenta na continuação dos sonhos e realizações da humanidade. Já não há espaço para negar seu papel – ainda que em proporções variadas, a depender do indivíduo, em nossa sociedade moderna.

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