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Tradução – uma mãe artista cansada – Amanda Palmer

texto original de Amanda Palmer, autora americana do best-seller “The Art of Asking” [A Arte de Pedir], compositora, mãe, feminista, líder comunitária, pianista e entusiasta do ukulelê…

Palavras de uma mãe artista muito, muito cansada sobre o que está para acontecer.

Quando deixei meu casamento, em abril de 2020, um mês depois do início do lockdown da Covid, eu estava num país estrangeiro (Nova Zelândia). Meu filho tinha 4 anos. Meu ex saiu do país e me vi cuidando sozinha do meu filho por cerca de um ano. Isso mudou minha vida.

Fiquei na Nova Zelândia porque não havia Covid por muito tempo e meu filho podia brincar com outras crianças e ser livre – em alguns aspectos. Mas nós estávamos sozinhos. Foi a coisa mais solitária que já experimentei. E eu precisava maternar.

Enquanto muitos artistas e compositores foram frutíferos durante a Covid, não foi o meu caso. Eu efetivamente deixei a força de trabalho da arte e foquei em cuidar do meu filho, que estava triste e assustado e confuso. Eu tecnicamente tinha recursos para contratar ajuda, mas não queria uma pessoa estranha educando o meu filho, especialmente com tudo o que estava acontecendo. Eu efetivamente parei de escrever e gravar canções. Também perdi contato com o mundo de política, música, meus amigos, e arte. Isso causou isolamento extremo.

Muitas, muitas, muitas mães precisaram fazer isso durante a Covid: deixar tudo de lado e priorizar o bem-estar emocional de suas crianças antes de qualquer outra coisa: antes do trabalho, antes de arte, antes de manter as conexões com amigos antigos e outros familiares, antes de ler um livro, antes de tomar um mísero banho, antes de acompanhar as notícias do mundo, antes de “qualquer coisa”.

Por quê? Mães sabem. Somos espertas. Também fomos crianças, e temos empatia, e memória, e um instinto básico que nos diz que, se errarmos nas primeiras paisagens e experiências de aprendizagem emocional de nossas crianças, elas sofrerão por toda a vida com o efeito da pancada. Não queremos fazer isso com elas. Queremos dar a elas estabilidade. Então, desfavorecemos o mundo amplo, e priorizamos nossas crianças.

Os homens trabalham presumindo que as mulheres vão deixar seus trabalhos, amigos e famílias para priorizar o bem-estar de suas crianças. A sociedade patriarcal pressupõe isso.

E eles estão certos. Faremos. Porque amamos nossas crianças.

A posse de Trump vai ser um esforço pelo banimento nacional do aborto.

Eles querem forçar uma mulher a ter um filho mesmo que não seja a escolha da mulher ter um bebê, e eles – de forma altamente irônica – também querem cortar acesso a bem-estar social e cuidado de saúde. Eles não vão ajudar essas mães com coisas básicas como creches de preço acessível.

Eis o problema: o efeito prolongado desse banimento que vem aí é sísmico por uma razão mais sutil:

Mulheres que estão cuidando de crianças têm muito menos tempo para lutar contra o sistema.

Mulheres – especialmente mulheres solo – que estão criando crianças têm menos tempo para trabalhar em seus empregos, para marchar e protestar, para fazer arte com significado, para se enraivecer contra a maldita máquina. Estamos ocupadas demais amamentando, e limpando fraldas cheias, e montando lego, e fazendo sanduíches, e lavando as roupas, e limpando bagunças terríveis e melequentas que nunca soubemos que precisaríamos limpar. Mesmo com ajuda, mesmo com babás, mesmo com familiares dando apoio, é pesado demais.

Não se engane.

Trump e os maníacos do Projeto 2025 sabem disso.

Um banimento nacional do aborto não é só uma coisa religiosa sobre a santidade de um feto. É também sobre manter as mulheres fora das posições de poder.

Vai funcionar. Se houver um banimento nacional do aborto, não só as mulheres vão desaparecer devido à falta de acesso ao cuidado do aborto seguro, mas mulheres vão desaparecer para dentro do reino doméstico.

UM BANIMENTO NACIONAL DO ABORTO NÃO É SÓ SOBRE ABORTO.

É sobre poder, e é sobre retirar mulheres do encontro nacional, da conversa mundial. Não porque vai ser ilegal que mulheres falem, mas porque elas estarão ausentes da reunião, porque estarão ocupadas montando lego e fazendo sanduíches.

O que vem em seguida? Luta, luta, luta contra os banimentos de aborto. Se você é um homem, isso também afeta você e o seu mundo. Marche, proteste, mantenha o engajamento. Se você é uma pessoa sem filhos: LUTE POR JUSTIÇA. Se você é uma pessoa que tem filhos mas eles já são crescidos e você não tem que fazer sanduíches o tempo inteiro: LUTE POR JUSTIÇA.

Se quiser fazer algo imediato e prático para ajudar: vá até a cozinha de uma amiga que seja uma mãe solo em dificuldade e lave a louça suja na pia, limpe as bancadas e tire o lixo. Limpe os banheiros e passe um pano na pia do banheiro, se estiver se sentido extra-angelical. Você será um milagre humano, acredite em mim.

AJUDE SUAS AMIGAS QUE SÃO MÃES. Elas podem estar envergonhadas de pedir ajuda. OFEREÇA.

A luta vai ser longa e dura.

Continue em comunidade.

Não se isole.

Continue em comunidade.

Não se isole.

Continue em comunidade.

PS: escrevi isso entre 5:30 e 6:30 da manhã hoje cedo, e estou compartilhando da cama, antes de fazer o café da manhã pro meu filho e levá-lo pra escola. Eu podia ter só rolado a timeline. Não o fiz. Viva eu.

Amo você(s),

Você pode compartilhar isso no Facebook ou Instagram, eu acabei de publicar em ambos.

Beijo

Amanda Palmer.

[traduzido do original por Adriana Coelho. 
link para o original: https://www.patreon.com/posts/115535654 (acesso somente para membros)
no facebook: https://web.facebook.com/share/p/BY7AWSdmFMub8xn2/
(acesso aberto)]

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