Quando soprei as velas do meu bolo, no aniversário de quarenta anos, algo me enchia de uma sensação muito nova. Depois de mais de uma década sendo adulta, uma voz gritava muito alto que essa não era a vida pra se viver pelos próximos quarenta anos. Obviamente, toda a confusão de sobreviver a uma pandemia não ajudava, mas era mais do que isso. Eu considero aquela a minha primeira crise de meia-idade.
Aos poucos, no passar dos anos seguintes, comecei a entender que era plural. Crises. Muitas delas. E também veio uma divertida constatação de que chamamos meia-idade essa fase em que ainda temos crianças de quem cuidar, mas também precisamos começar a cuidar dos idosos. E nós ali, no meio.
De onde estou, tento entender mais uma crise. Não é aguda, não estou em sofrimento intenso, mas talvez um pouco hiperfocada. Vejo sinais nas relações alheias, nas obras de audiovisual, nos textos… E ela tem a ver com a dificílima transição de reposicionar o lugar de filha. Não sair dele, mas rearranjar as coisas em volta e entender onde ele está.
Há alguns meses, comecei uma relação profissional com um casal de mais de 70 anos. Esse arranjo me permite ouvir um pouco sobre o que eles se lembram, com nostalgia, dos muitos anos vividos, e também cabe em nossas conversas um pouco do que pensam sobre as novas limitações, as novas dinâmicas, a constatação de que o que ainda há pra se viver é menos do que já se viveu.
De certa maneira, isso tem aberto os meus olhos para o envelhecer dos meus pais. Não tenho medo da morte deles: tenho absoluto pavor, e por isso nem penso no assunto. Ao mesmo tempo, venho percebendo que as mudanças continuam a acontecer. No fim da adolescência esperneei muito ao desconstruir a fantasia de como era a minha mãe. Já adulta, fui lentamente entendendo a personalidade do meu pai. E agora, enquanto eles caminham da primeira para a segunda década como idosos, vão perdendo algumas das amarras sociais e dos freios de dizer ou fazer só pra agradar, e vão mostrando novas facetas que eu não conhecia.
Não sejamos ingênuos: a maior parte da minha vida adulta também é um mistério para eles. Claro que eles reconhecem os traços óbvios da minha personalidade, e também se mantêm firmes com os deles. Os humanos somos muito mais complexos que os traços óbvios, e é na aproximação das relações que a gente percebe todo o restante. E esse jogo do que é comum e o que é diametralmente oposto vai ficando cada vez maior. Talvez eles, que não estão na meia-idade, não estejam reparando tanto no que eu penso, e tudo bem – eu não tô preocupada com isso. O que realmente vem povoando minha introspecção é a perspectiva de cuidar, com afeto e zelo, dos anos finais deles (que ainda vão demorar décadas pra começar, viu?).
Como me manter próxima de alguém cujas ideias são tão completamente opostas às minhas em alguns aspectos? Quão próxima devo estar? Onde é a rede de proteção da minha sanidade? E quanto eu preciso educar, o que eu devo deixar para lá? As minhas vivências e construções de vida adulta me levaram a crenças que tornam absurdas aos meus olhos algumas das crenças deles. Será que eles precisam saber? Será que eu vou sentir necessidade de falar de tudo? Será que é meu papel?
Por agora, acalmo o coração. Às vezes escrevo, às vezes divago, e a maior parte do tempo agradeço de coração por essa chance de pensar nisso tudo com antecedência. Como disse, não é um sofrimento agudo e talvez seja uma boa crise pra real aprendizagem. E, enquanto ouço coisas que me fariam correr léguas se fosse ouvindo de outras bocas, reconheço os laços de uma família com estrutura sólida e constante cuidado uns com os outros – ainda que nem sempre da maneira com que o outro gostaria. Sem famílias margarina por aqui, mas certamente com uma rede de segurança para a qual me jogar em caso de emergência.